Maria Gabriela Llansol

 

  

Neste ano de 2008, na sua casa de Sintra, no passado dia 3 de Março, faleceu Maria Gabriela Llansol, vítima de uma doença cancerosa que já a atormentava há mais de um ano.

Deixou cerca de 30 livros e perto de 74 cadernos que constituem um vasto espólio inédito. Os seus dois últimos livros, publicados pela Assírio & Alvim, Cantores de Leitura e Desenhos a Lápis com Fala -Amar um Cão, com desenhos do seu marido já falecido, Augusto Joaquim, confirmam a genialidade de uma obra que, desde os contos publicados em 1992, Os Pregos na Erva, revelavam uma escritora que fugia aos cânones da norma literária, sem se desviar, porém, da solidariedade com os homens, com a arte, com a filosofia, com a História, com a vida, no mais alto expoente.

Uma das suas obras mais emblemáticas, porque todas são extraordinárias, é O Livro das Comunidades, na qual se erguem as figuras da História da Cultura Mundial que mais a impressionaram pela sua natureza excepcional. Comunidades cujos membros se ligam por laços comuns de espiritualidade, e até de marginalidade, desde os tempos mais remotos aos mais recentes, músicos, pintores, escritores, filósofos, santos. Nietzsche, Rilke, Ibn’Arabi, Kierkegaard, Fernando Pessoa, Camões, Espinosa, Bach, Santa Teresa, convivem na sua obra com a naturalidade do quotidiano e da memória de factos vividos.

O seu discurso é, porém, perturbante, porque se coloca aparte dos géneros, da literatura instituída. Não aceita rótulos e afasta-se de todos os poderes, inclusive o da crítica. Teve, no entanto, todos os prémios literários, nomeadamente dois da APE, tendo recebido o último em 2006, com O Amigo e a Amiga. Em 1991, recebera o mesmo prémio com o livro Um beijo dado mais tarde.

O seu marido, companheiro de exílio, das horas alegres e tristes, desde o princípio dos anos sessenta, altura em que se exilaram, está presente em quase todas as suas obras.

Maria Alexandra Lucas Coelho refere-se, num artigo dedicado à escritora, a uma passagem do seu livro Lisboaleipzig, em que Gabriela Llansol interioriza a união com o homem que ama, numa situação de exílio como a que viveu na Bélgica:

  

«Fui para Herbais pedir a esmola do silêncio. Viver em segredo não é crueldade. Mas, para viver em segredo, é preciso um companheiro do mesmo reino». (Público, 4 de Março de 2008)

 

Esse companheiro, que o foi por inteiro, numa absoluta identificação e harmonia, faleceu há cerca de cinco anos. Os que a conheciam julgavam que ela não sobreviveria, mas ela sobreviveu ainda cinco anos, tempo em que se refugiou na escrita e o transformou no seu mundo, um mundo de dor e de saudade, mas igualmente da alegria da criação, ofertando-o a um leitor a quem dava lugar à intervenção, proporcionando-lhe cada cena como uma experiência pessoal.

Eduardo Prado Coelho falava da magia dos seus textos que advém de uma mística.

Na verdade, as figuras dos místicos medievais, João da Cruz, Santa Teresa, do mestre Eckart, de Ibn Arabi aparecem em muitas das suas obras. Como afirma o ensaísta António Guerreiro, no belíssimo texto sobre a autora, «A mística é o que (nas suas obras) permanece ligado ao mundo das ideias e, sobretudo, ao «ethos» de afirmação intensa» (Expresso, Actual, 8 de Março de 2008)

A obra de Gabriela Llansol tem de ser lida e compreendida como algo que surge na sequência natural da História dos homens. Para isso o leitor tem de investir a sua atenção, ceder ao impacto da primeira leitura, para se encontrar ele próprio no texto.

Como diz João Barrento (Público, 4 de Março, 08): «Temos de reaprender a ler com Maria Gabriela Llansol.» E se ela, nos dias de hoje ainda não foi suficientemente lida e apreciada, será certamente, como preconiza o ensaísta, a nível literário, a escritora que marcará este século tal como Fernando Pessoa marcou o século XX.

                                                                                                                                           

 

 

Elsa Rodrigues dos Santos