Porto, Palavra em Mutação, 2003
Maria Natália Miranda,
licenciada em Filologia Românica, com um currículo rico em obras e prémios e
com uma longa experiência de escrita que se revela na sua colaboração em jornais,
revistas, livros escolares e antologias, bem como em textos para a RTP e
trabalhos para a Rádio Renascença, Rádio Estação Orbital e outras, e na sua
docência, é reconhecidamente uma poetisa de grande qualidade.
No prefácio deste livro, Terra Agreste, o poeta Ulisses Duarte
diz da autora o seguinte: “Sólida na sabedoria, Maria Natália Miranda enche-nos
do ritmo próprio das oficinas dos grandes poetas”. Alerta-nos, assim, “ab initio” para a qualidade da
obra.
Na verdade, Natália Miranda
cumpre-se, quer neste livro, quer em Infinito
Azul, como poeta de grande mestria, usando a palavra nas suas
virtualidades.
Terra Agreste é de um lirismo telúrico, encontrando a sua força na simbiose
terra/corpo como um todo sensual.
No primeiro poema, “Terra”,
acentua-se essa sensualidade pela via da linguagem poética, onde a terra é
“carne nua”, “aromas”, “pele em flor”, “mel da tarde”, “ventre generoso” que o
agente poético “desvenda”, “desventra”, “come” e “em sonhos avoluma”.
Dessa relação “eu/terra”
resulta uma promessa que depende de um tempo de fertilidade: “Quando o meu
sonho repartido em sonhos / avolumar teu ventre generoso / em simbioses de
heras e granito / virei sentar-me ao lado do insondável / na hora do infinito”.
O insondável e o infinito,
inserindo-se no campo do onírico, apontam para uma
outra dimensão, a do mistério da natureza, em perfeita harmonia com a essência
poética.
No poema “Pastor”, repete-se
a relação sujeito poético / terra, sendo esta corporizada na forma de pastor. O
poeta torna-se ovelha perdida do seu rebanho. Nessa metáfora, evidencia-se a dramaticidade da insatisfação e da incompletude (“para a
minha sede não encontro a fonte / para a minha fome não há pão nem horta”).
No poema “A terra de onde
vim”, as imagens de uma grande beleza evocam a sua Beira Alta, de argilas
sinuosas (“Terra / venho do teu regaço / de argilas sinuosas / do teu corpo
suado / transfigurado em rosas”). Imagens que são particularizadas nos dois
poemas dedicados à sua Terra Natal, “Canas de Senhorim” I e II
“Minha terra de feno e de
granito
minha aguarela branca entre
montados”
Aí se situa a autora, numa
visão muito pessoal e telúrica donde emergem as raízes da História de Portugal:
“Desta terra sentada no
planalto
alongo o meu olhar ao longe e ao
alto
vivo lendas de moiras encantadas
E as memórias de Roma e
Viriato
descem da serra prendem-se no mato
e latejam nas veias das
calçadas.”
Na mesma
perspectiva histórica, de encontro às origens, o “Poema para Viriato”, recordando
o grande chefe dos Lusitanos que se opôs durante longos anos aos Romanos e que
se estabeleceu com o seu povo na costa ocidental da Península, entre as
embocaduras do Douro e do Tejo:
“Na penumbra das ruas e das
praças
Na seiva dos jardins no sol no ar
Viriato sensível de mãos
lassas
É um contorno, vivo a
palpitar.”
A dimensão
social está patente em poemas como “Mineiro”, “Operário”, “Campino” e
“Ceifeira”, em versos como:
“Mastigo o ar tingido de
carvão
e encontro-me comigo a cada
passo
com o mundo na ânfora do braço
e uma estrela de urânio em
cada mão”
(in “Mineiro”)
ou no poema “Operário”:
“Trago na pele o ar do meu
cansaço
rios cavados de suor no peito
sobre as espáduas trago a curva a
jeito
da luta em que me gasto e em
que me enlaço”
e no poema “Campino”:
“Sou a terra da terra feita
asa
feita vela a moer, feita amplidão
Devasso os ventos sem poisar
no chão Sustenho os toiros com o sol em brasa”
e no poema “Ceifeira”:
“Uma gota de vida no
horizonte
embaraçado de oiro e solidão
recorte de papoila em mar e pão
colado o sonho no perfil do monte”
Em todos
estes poemas perpassa um halo espiritual, emprestado pela voz poética de
Natália Miranda que se transfigura pela beleza das palavras e pelo saber feito
de experiência de escolha e de vivência literária.
Elsa Rodrigues dos Santos