Mário Fonseca (1939-2009)

 

 

Mário Fonseca nasceu na Praia (Santiago de Cabo Verde) a 12 de Novembro de 1939. Fez os estudos primários e secundários no Mindelo (Ilha de S. Vicente). Exilou-se em 1964, licenciando-se em Letras pela Universidade de Dakar. Deu aulas num liceu da Mauritânia, a partir de 1977. Tem participação no Boletim Cabo Verde. Foi fundador da folha literária “Seló” do Jornal de Notícias mindelense. Está incluído nas Antologias:

     A Poesia Africana de Expressão Portuguesa de Pierre Jean-Oswald Editeur

     Na Noite Grávida de Punhais de Mário de Andrade

     No Reino de Caliban I de Manuel Ferreira

   

Tem vária colaboração na revista Raízes, da qual foi fundador.

 Obras:

     Mon Pays est une musique, Nouakchout, (Mauritânia), 1986

     La mer a tous les coups, Ed. Imprensa Nacional de Cabo Verde, 1990

     Se a Luz é para todos, edição Publicom, Praia, 1998

 

Mário Fonseca faleceu na cidade da Praia em 2009.

 

Na Introdução ao livro Mon Pays est une musique, o poeta explica porque não escrevia em português ou em crioulo, mas em francês. Fê-lo num desafio ao seu grande amigo Arménio Vieira que lhe dissera que o seu destino só poderia ser escrever em português. E igualmente a Arnaldo França, seu mestre, que achava o projecto de escrever em francês impossível. Mas mais do que um desafio, era a fruição da própria língua francesa que, como ele dizia, «o excita e o lança num estado que se poderia chamar de estado de liberdade, resultante de um acto puramente de vontade e de amor.»

Além disso, o poeta sente o francês como uma língua da fraternidade. Explicações razoáveis, mas que soam com uma má consciência de quem se desvia do seu próprio património de ser e existir em língua portuguesa.

Não há dúvida, porém, que Mário Fonseca, com este livro, dá um contributo valioso à literatura de língua francesa. No prefácio, Jean-Jacques Block considera o livro de uma grande qualidade e riqueza, quer no conteúdo, quer na forma. Na verdade, Mon Pays est une musique para além da qualidade anunciada por Block, valoriza-se pela forma musical dos seus versos que consubstanciam a intenção do título e, ao mesmo tempo, confirmam a realidade cabo-verdiana, que está impregnada do ritmo da sua própria música e dança, das maviosas mornas e coladeiras, mais modernamente, do funaná, que fazem parte do imaginário e do dia-a-dia, configurando o ritmo do corpo dos seus naturais.

Inseridos na temática do mar, os poemas que constituem o capítulo «Prés de la mer» são os que se aproximam mais do seu arquipélago:

 

                                             Mer! Ô mère!

                                      Nécèssera-t-elle donc jamais cette errance?

                                            Combien de soleils vais-je subir

                                             Sans emboucher mon souffle ?

 

O mar para o ilhéu cabo-verdiano que o liberta (evasionismo onírico), que o salva da fome e é fonte de sobrevivência, é igualmente fonte de sofrimento, de dor, de saudade e, tantas vezes de morte. Assim, o mar surge em confronto com o seu «eu», pois, tal como milhares de cabo-verdianos que empreenderam a aventura da emigração, o agente poético inicia a sua viagem vivencial a partir do trauma da partida e do encontro com o desconhecido e da adaptação, na maior parte das vezes muito dura. Morte e renovação, deste modo são, são representadas em permanente confronto. Daí que no poema «Le Rasoir Bleu», o poeta interroga:

 

                                               «Mais l’entière mer, tel qu’elle est

                                                   Et telle que nous l’imaginons

                                          Suffit-elle à faire un poisson à le rendre heureux ?

 

O poeta faz-se peixe, nessa diáspora, semelhante aos seus irmãos, peixes como ele, que lhe ensinam a lição da vida no momento em que se encontra prestes a afogar-se no mar profundo do desânimo. Eles recordam-lhe que contra o céu e a terra é preciso viver, cantar, acreditar, amar e lutar.

O amor é outra forma de emergir da morte e do sofrimento. Os poemas a Jandire são um grito de vida e transformam-se em arte poética (ver poema «Un art poétique»). Este belo livro enxertado de alguns sonetos em estilo camoniano, na língua que lhe deu o ser, soa como uma música um tanto estranha, longínqua, de alguém que empreende uma viagem no olvido e na dor da ausência.

Anos depois, em 1998, Mário Fonseca publica Se a Luz é para todos, retornando como bom filho à casa paterna, escrevendo em português. No entanto, é preciso que se diga que o poeta mesmo escrevendo em francês era profundamente cabo-verdiano.

 

Se a Luz é para todos

Praia, Publicom Junho de 1998

 

O Poeta abre o livro não com uma introdução mas com um pórtico, isto é, uma entrada monumental (que é o sentido que tem esta palavra), com o poema «Nem a Vida», em que o poeta declara:

«Digo-vos que sou bem deste mundo

E deste mundo fora deste mundo

Nada me interessa.»

 

Na verdade, Mário Fonseca, com o seu estilo eloquente, prolixo e, quase diria, monumental, teria de começar o seu livro com um pórtico, imprimindo à obra, uma certa grandiosidade.

O primeiro grupo de poemas datados de 1960-62 intitula-se «Quando a vida nascer». E para ele esse momento chegará quando «despedaçando o marasmo/ abrindo novos caminhos/ que não indicam o mar/ que não sugerem a fuga/ caminhos novos que mostram aqui e ali/ de um lado e doutro –a terra!/ terra virgem extravasando vida/ estrangulando medo e conformismo/ apontando a vida/ a homens rejuvenescidos que querem viver».

Por isso, no princípio dos anos 60, exactamente em 1960, o poeta deseja uma mudança que destrua o marasmo em que se vivia, encontrando uma solução que não fosse apenas a fuga pela emigração.

No poema «Fome» o poeta descreve impressionantemente o drama da fome e suas consequências principalmente nas crianças.

«Eis-me aqui África» é o segundo capítulo datado de 1966-67, escrito em Dakar com dois poemas. O primeiro, exactamente com o mesmo título, longo, extravasando a sua veemência pelas dores de África. Poema que é um grito de revolta com toda a força poética que ele sabe imprimir. Nele alude ao seu retiro para Dakar, explicando: «Eis-me aqui África/ pronto a desferir/ o raio/ por que esperamos todos/ eis-me aqui/ continente meu/ tão perto do Arquipélago/ que indo/ por estas praias de Dakar/exercitar/ a minha antiquíssima/ necessidade de gritar/ até os peixes/ da ínsula prisão/ me escutam/ e comunicam comigo»

E termina o poema, exclamando:

 

«Eis-me aqui África/nas tuas entranhas/ de onde afinal/ nunca saí/ eis-me aqui África/ eis-me aqui/ aqui.

 

Mário Fonseca sente África como um todo, isto é, a sua «africanidade é necessariamente pan-africanidade», segundo palavras suas, retiradas do posfácio a este livro, a que acrescenta: «o desejo de uma só África (o que não significa recusa da diversidade) de Cabo Verde ao Cabo da nossa Esperança.»

Apercebemo-nos imediatamente que esta poesia tem objectivos políticos. Sobre poesia e política, o poeta discorre longamente no citado posfácio. E interroga. «Como conciliar poesia e política, poesia e revolução, poesia e poder, poesia e poder político?

Citando vários pensadores e poetas como Senghor que afirmou quer «há momentos excepcionais em que efectivamente cessa a antinomia entre a poesia e a política, excepção essa que não anula a regra de absoluta oposição entre esses dois tipois de actividade» conclui que a consciência da complexidade do mundo, dos seus mistérios, das suas tragédias «está em condições de alimentar a escrita com esse fogo ininterrupto que lhe é preciso para iluminar as contingências e ultrapassá-las a fim de sondar o invisível e o inaudível até esse ponto onde a escruta do humano, por mais insignificante que seja, permite compreender o sentido profundo da natureza humana.»

Nesta medida, Mário Fonseca considera que foi pertinente publicar em 1977 poemas escritos nos anos 60, em que denunciava os males do colonialismo não só em Cabo Verde como por toda a África e ainda o seu desejo da independência de Cabo Verde, combatendo as injustiças através de uma poesia, segundo palavras suas «demasiado nacionalista, demasiado política, demasiado vociferante, demasiado internacionalista», lutando por «um projecto próprio». Além disso, essa poesia continuava a ser pertinente porque, considerava ele «infelizmente as injustiças que a engendraram e continuam a engendrar, não desarmaram, antes pelo contrário, continuam a devastar as esperanças de uma boa parte da humanidade»

Nesta obra, o poeta apresenta-se, dizendo: «Nasci para a poesia no mesmo momento em que nasci para o nacionalismo combatente e, por conseguinte, para a política, simultaneidade que talvez tenha prejudicado o meu desabrochar como poeta e que iria marcar, por bastante tempo e de modo indelével, a minha vida e o que eu escrevesse.»

Assim, a sua poesia tem como objectivo uma premissa ética, a militância política nacionalista, em favor da sua terra, em prol dos seus homens e, desde que começou a escrever, contra os abusos do colonialismo, constituindo-se numa das vozes mais lúcidas, rebeldes e cultas que se faziam ouvir em Cabo Verde.

 

                «É preciso/ é urgente/ necessário // que a poesia/ sol verdadeiro do nosso sistema solar/passe ao combate// é preciso é urgente necessário// que a poesia/ tambor rítmico do mundo/ passe ao ataque/ contra bandeiras/ por demais desfraldadas/ da fealdade/ da estupidez/ da estreiteza de longos dentes//com todas as armas/ com todos os gumes/da rima/ do ritmo/ da melodia/com todas as granadas/ da mente// do coração/ dos nervos»

 

É importante realçar que Mário Fonseca defendia, no que dizia respeito à poesia, como prioridade, a sua qualidade estética, tal como Mário Dionísio em relação à poesia neo-realista portuguesa em que declarava que mesmo a poesia de carácter político tem de possuir emoção poética e transmitir momentos de elevação através da palavra, não aceitando a poesia panfletária. Ora a poesia de Mário Fonseca possui essa qualidade que ele exigia a si próprio, cumprindo-se no seu estilo exuberante, conceptivo e empenhado.

A sua poesia é também lírica, de amor pela mulher amada e daí erguer verdadeiros hinos à mulher em geral.

                                        

                                       «O que prova a existência de Deus/- pelo que lhe dou graças -/ /é ele ter cometido o segundo erro de Deus, ao criar-te cheia de graça, ó mulher!)

 

Mas a sua poesia é igualmente de amor pela humanidade, por quem, num gesto de pura fraternidade e solidariedade, se dá, entregando-se. Citamos um poema em forma de prece:

 

                                          «Creio/ na Libertação dos povos/ na vida/ única/ nossa/

e na vocação/ do homem/ para ser/ feliz/ fraterno/ e belo/ Sem ter razão nenhuma para crer!”

 

Neste momento em que ele desapareceu, mais do que a sua poesia, recordamos o seu espírito arguto, polémico, a sua alegria em conviver, conversar, juntando-se aos amigos, recuando ao passado, mas pontuando sobre o presente. É assim que o veremos sempre, antes de mais nada, como um intelectual, um homem de profundas convicções, por isso, na devida altura, se exilou, continuando no exterior a combater pelos seus ideais. Em segundo lugar, era um homem extremamente emotivo, um grande conversador que se transbordava em palavras e em referências culturais e literárias, era um homem do mundo e a sua poesia é um reflexo da sua forma de ser e de estar, constituindo um documento muito importante de uma época e de uma vida.

A sua poesia insere-se num contexto que abarca o mundo pela sua universalidade, mas muito em particular o seu Cabo Verde. Por isso, ele afirma num poema:

                                            

                                    «Sortilégio

                                     mistérios sem mistérios

                                     que ficarão mistérios

                                     mais insondáveis

                                     que o universo

                                      pelo qual não troco

                                      a minha terra tão pequena

                                      que cabe

                                      inteira    

                                      dentro de um poema como este.

 

 

 

Elsa Rodrigues dos Santos