Mário Máximo

Árvore Hedonista

2008

 

 

Na Nota do Autor leia-se em dada altura: «Com este livro aproximo-me, ainda mais, do lado natural da palavra. Da ligação da palavra a tudo o que existe, e a todos os conceitos que fazemos acerca daquilo que existe. É esse lado natural da palavra que permite que o verso seja um pedaço, um percurso de vida. Um percurso de liberdade dentro da vida… como dentro do poema.»

E acrescenta: «Creio que até ao fim da minha vida será isso o que cada novo livro de poemas trará: um novo percurso de liberdade.»

Com este sentido de liberdade escreve A Árvore Hedonista, ou melhor, a árvore do prazer, em todas as suas vertentes: o prazer espiritual da cultura, da palavra, do livro imaginado como uma árvore, o prazer da descoberta, o prazer do amor, da beleza, do convívio, da amizade, do sonho, da recordação.

Inicia o livro com um belo poema, no qual o sonho leva o sujeito poético aos primórdios dos antigos povos da Fenícia, «Rosto de alma anónima cavalgando as ondas de um desígnio/ feito das coisas simples que dão vida à vida» apaixonando-se pelo rosto único da mulher Núbia que por si aguardara «numa espera tecida por pequenos gomos de destino».

O poeta procura na vivência do presente sinais de uma ante-vida ou de outras vidas passadas em outras reencarnações. («Antes de a vida começar-me não sei o que fui nem o que de existência produzi. Descubro momentos que já foram meus, toques inesperados, réstias de ansiedade - tudo coisas que vêm de longe não de outros mas de mim.» E interroga-se: «Os sonhos que lanço para longe. Os sonhos para os quais ainda não nasci, o que são senão pássaros lindos e raros, pisados pelo meus pés de falsa inocência?» E acreditando no milagre da reencarnação, o poeta julga-se eterno em permanente evolução («Assim me julgo eu também eterno como as margens e sempre fluindo como as águas») .

Mas o poeta desperta do sonho ou do sono e afirma: «Agora é que acordei na realidade que me compete neste tempo.» E prossegue: «Da janela vejo a paisagem urbana. E, ingenuamente, apetece-me ser eu/ mas de modo profano.» 

 Deste modo, acorda para a cidade onde vive e onde lhe chegam jornais, páginas de jornais vindas não se sabe donde e questiona-se: «A que trecho de história pertenço eu?»

E continua a questionar-se, procurando situar-se dentro de um contexto próprio: «Noites do Líbano nos tempos felizes de Khalil Gibran./ Noites aluadas a caminho de Katmandou. Viagens iniciáticas/ De amor por Paris e Praga. Recados alumbrados de Dostoievsky./ Noites inquietas e fogosas nas tertúlias de Natália Correia.//

O que representa tudo isto dentro do meu universo?»

Um sorriso misterioso de uma mulher entre as páginas de um jornal? O amor, uma noite de entrega de corpos e almas? («Beijarmo-nos. Tocarmo-nos. Sermo-nos sem fim ou estratégia. Iluminados por sonhos vagantes»).

Ou tudo isso colocado em palavras? E declara o poeta: «É que as frases, as palavras, as sílabas e as letras têm a sua forma especial/ de respirar, de ser. Existem, soando através da convenção do silêncio./ Demarcam-se porque existe silêncio. São o outro lado/ da partitura da vida.»

E exactamente porque, como afirma o poeta «No silêncio da palavra eu acreditei que um Deus passava», ele parte «na direcção do mar mais longínquo» numa viagem fantástica através da sua própria poesia. Viagem iniciática «no estranho jogo de luxúria e letal desvario».

A palavra erotiza-se. Eros dá as mãos ao ser apolíneo para construir a obra poética simbolizada pelo Deus das Árvores ou Árvore Hedonista. («Saberás quando a mensagem tiver de chegar. Tudo encontrará o sentido que agora não tem»).

Ao terminar a obra, o poeta fala-nos dessa árvore especial que não gera sementes. «É a árvore dos poemas e dos versos.» E prossegue: «A árvore onde florescem todos os versos e poemas / que os poetas escreveram desde a fundação dos tempos. (…) Ela guarda também os poemas que jamais serão escritos: os que constituem o tesouro radicalmente interdito.» «É a Árvore Hedonista! (…) Aquela onde o prazer dos Deuses se unifica», proclama o poeta.

Esta Árvore Hedonista de Mário Máximo é, na verdade, uma fonte de vida que gera prazer, em primeiro lugar, para o próprio autor que a escreveu, em segundo, para o leitor que a leu, pois entrevê nela toda a simbologia poética da árvore que conduz à utopia e aos grandes feitos, por uma escrita com rigor e beleza, sentimento e emoção, impregnada da qualidade que caracteriza as belas letras. 

 

 

                                                                                                                                        Elsa Rodrigues dos Santos

 

                                                                                                                   Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa

                                                              

                                                                                     (Recensão lida aos microfones da RDP Internacional no programa «Fantástica Aventura»)