E. M. Melo e Castro

 

 

Quando em 61 era publicada a antologia Poesia 61, onde se destacavam nomes como Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luísa Neto Jorge e Maria Teresa Horta, o público português mais atento sentiu que estava perante uma nova tentativa de estruturação de um movimento de vanguarda, apoiado sobretudo nas experiências dos concretistas brasileiros de 1957 do Suplemento Literário do Jornal do Brasil e do Grupo Noigrandes da Poesia Concreta do Brasil. Aí o verso era extinto, não sendo indiferentemente em linhas e direcções várias ou como formas que valiam por suas próprias aparências gráficas, à maneira de cartaz abstraccionista. Assim, a palavra retornava ao seu valor de signo e de objecto, organizando-se uma sintaxe na qual as partículas de ligação desapareciam em benefício de uma ideografia nova.

Nomes brasileiros como Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo apresentam-se como os responsáveis por este movimento.

Em Portugal, esta experiência só viria a adquirir maior consciência com as iniciativas de E. Melo e Castro que, entretanto, coligia uma extensa Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. Aparecia, na mesma altura, o Caderno da Poesia Experimental I, da responsabilidade de António Aragão, de Melo e Castro e de Herberto Hélder, onde participaram António Barahona da Fonseca, Salette Tavares e António Ramos Rosa.

Desta equipa nem todos tomaram o caminho da Poesia Experimental, pois apesar  do seu papel renovador, no entanto, era tão inquietante como polémico, sobretudo, em relação aos cânones tradicionais de uma poesia portuguesa com um discurso profundamente sentimental e retórico.

Na verdade, esta poesia aparecia na década de 60 à margem das literaturas reconhecidas como tal e até das vanguardas reconhecidas como um fenómeno internacional que repensava e punha em causa, pela primeira vez, a comunicação dos padrões literários estabelecidos. Pretendia-se uma absoluta renovação através da desmontagem de um discurso considerado por eles de obsoleto, privilegiando a comunicação visual.

Mais tarde, em 1981, Ana Haterly e Melo e Castro publicam os textos teóricos e documentos referentes à poesia experimental portuguesa com o título Po-Ex. Tinham-se passado quase duas décadas até ser possível a formulação não de um Manifesto Experimental que nunca fora feito, talvez até pelo próprio radicalismo renovador a que a si próprios se submeteram, em todas as suas posições, mas a teorização de todo este movimento de vanguarda.

As críticas choviam, como é natural, sempre que surge uma nova linguagem ou uma nova proposta estética. Mas as críticas mais veementes a esta poesia experimental e visual consistiam na acusação de «distanciamento das realidades sociais portuguesas», por um lado, e «a iconoclastia gratuita», por outro. Acusações que não tinham sentido, porquanto os objectivos desta poesia situavam-se exactamente na realidade social e cultural portuguesa de então de grande pobreza e obscurantismo. Segundo palavras de Melo e Castro, «a poesia experimental defendia o repto da pobreza e da escassez de meios que era parte do contexto sócio-económico português».

Assim, pretendiam construir as suas obras dentro de uma grande originalidade e qualidade estética, mas produzida em condições precárias e com uma enorme escassez de meios. Nas palavras de Melo e Castro, «enfrentavam, de mãos e olhos nus, o alvorecer da era electrónica e cibernética no Portugal dos anos 60»

Esta atitude revela o combate ao obscurantismo e conservadorismo da época através da maior arma que possuíam – a ironia.

Esta rotura, que na Poesia 61, preconizava:

 - um radicalismo semântico/textual

 - a reformulação de uma nova linguagem, um discurso outro

 - um neoplatonismo teorizante

 

era confirmado na Poesia Experimental através de:

 - um radicalismo morfológico

 - a palavra objecto

 - o texto matéria

 - empirismo sensual

 - visualização

 -sintaxe combinatória

 - uma semântica outra.

 

Portanto, esboçava-se uma situação contraditória que Mello e Castro define da seguinte maneira:

 - a necessidade de resistir materialmente através da linguagem como material de comunicação e a impossibilidade material de usar os devidos e adequados materiais;

 - a necessidade de radicalmente negar e destruir a situação ideológica e linguística vigente e, simultaneamente, propor as bases de um construtivismo progressista a que todos aspiravam.

 

E se António Aragão, Ana Haterly, ou na altura, o jovem Silvestre Pestana e Melo e Castro foram beber no estrangeiro muita dessa renovação e da formação cultural, humanista, artística e das novas tecnologias, no entanto, a ruptura que, então, se preconizava era apenas em relação ao convencionalismo imposto, e nunca ruptura com as raízes portuguesas. A própria Ana Haterly fazia, à sua custa, uma pesquisa sobre os processos de criação dos sec. XVII, XVIII e XIX e, muito particularmente, sobre a Poesia Barroca Portuguesa, fazendo uma revisão crítica das fontes culturais e mesmo de natureza política patentes no processo de criação dessas épocas que foram ocultadas.

Assim, ao mesmo tempo que se recuperavam as raízes, acompanhava-se o que se estava a fazer no estrangeiro. Pela primeira vez, num movimento literário, em Portugal, havia uma sintonia com a criatividade contemporânea.

E isso deve-se em grande parte ao espírito irrequieto, inovador e empreendedor de Melo e Castro que foi, na verdade o grande teorizador do movimento concretista em Portugal.

Por isso, a Fundação Serralves, presta-lhe neste momento a devida homenagem ao cinquentenário da sua carreira literária, levando a efeito uma cuidadosa exposição sobre a sua obra, que todos nós deveríamos ver para compreendermos melhor esse período da História de Portugal, as ideias, os projectos que aí fervilharam e se realizaram, influenciando as letras, as artes plásticas e a música portuguesas.

 

 

 

                                                   poeta

 

 

arca                                                                                      seta

haste                                                                                     agulha

     

 

                                                chama

 

faúlha                                                                                   cisco

limo                                                                                     limbo

inferno                                                                                 montanha

 

 

                                                 flor

                                                amor

 

 

seta                                                                                        arca

 

 

 

                                                poeta

 

 

 

 

 

Nota: Primeiro poema concreto publicado em Lisboa, no Diário de Notícias, em 17/9/59. Este poema pode ser lido em várias direcções.     

 

 

                                                                                                                                                       Elsa Rodrigues dos Santos