Mia Couto

E se Obama fosse africano?

e outras intervenções

 

 

«Na sequência do anterior livro Pensatempos, Mia Couto reúne um conjunto de textos de intervenção que resulta da sua participação em encontros públicos nos últimos anos. São textos de reflexão que, ao mesmo tempo que reinventa o seu universo, não abdica da sua missão de pensar o mundo. As intervenções abordam temas que vão da política à literatura, da cultura à antropologia, mas todos eles confirmam como o escritor moçambicano faz da sensibilidade poética um modo de entender a complexidade do nosso tempo».

Assim reza a contra-capa do livro e, na verdade, logo no primeiro artigo intitulado «Línguas que não sabemos que sabíamos», Mia Couto imprime a sua vocação inovadora na forma de exprimir as suas ideias, como nos próprios conteúdos pelas coisas verdadeiramente surpreendentes que nos transmite. Neste artigo, sobre o valor da língua ou das línguas, Mia Couto critica os governos por se terem fechado à cultura e às utopias. Por isso, ele censura: «A palavra de hoje é cada vez mais aquela que se despiu da dimensão poética e que não carrega nenhuma utopia sobre um mundo diferente».

Reflecte sobre o que fez sobreviver o mundo. «O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade.» E volta a censurar: «Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso.»

Conta em seguida uma série de histórias acontecidas durante as visitas que fazia às populações, enquanto biólogo, acompanhado de cientistas suecos, que ilustram como as palavras traduzem conceitos diversos e relativos. Por exemplo, o tradutor africano traduziu para os inhacas o sentido da palavra «cientista» como «feiticeiro», porque «cientista» não existe nesta língua local. Assim, estes cinco cientistas surgiam aos olhos daquela gente como feiticeiros brancos. 

O escritor chama a atenção para o facto de que subsiste ainda a ideia de que apenas os escritores africanos sofrem aquilo que se chama o «drama linguístico», mas o que é certo é que «nenhum escritor tem ao seu dispor uma língua já feita. Todos nós temos de encontrar uma língua própria que nos revele como seres únicos e irrepetíveis.»

A terminar o artigo, declara:

«O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural.

Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo, De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. Do outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem. Ao lado de uma língua que nos faça ser humanidade, deve existir uma outra que nos eleve à condição de divindade».

É essa língua «que nos faça ser asa e viagem» que surge na sua obra, quase de uma forma mágica, pela criação de neologismos de forma e de sentido, por associação de ideias, cruzamento e aglutinação de palavras, reinventando uma outra língua que lhe confere aquilo a que Mia Couto se refere, «a condição de divindade».

Não que acreditemos que os escritores sejam deuses, mas têm algo em comum, o seu poder criador.

Noutra intervenção, no âmbito da biologia, Mia Couto terminava, dizendo o seguinte:

«Afinal a ciência e a arte são como margens de um mesmo rio. A Biologia não é diurna nem nocturna se não assumir como autora de uma espantosa narração que é o relato da Evolução da Vida. Podem ter a certeza de que a História da Evolução é tão extraordinária que só pode ser escrita juntando o rigor da ciência ao fulgor da arte.»

Num discurso que Mia Couto fez no relançamento das obras de Jorge Amado fala da grande influência que o escritor baiano exerceu sobre os escritores africanos e não só do espaço moçambicano. Jorge Barbosa em Cabo Verde expressa essa influência ao escrever noKaunda seu livro Cadernos de um Ilhéu um capítulo a que chama «Epistolário para o Brasil» e Gabriel Mariano, também poeta cabo-verdiana fala dessa influência. Em Moçambique a mesma influência se fez sentir e de tal maneira que Craveirinha, o maior poeta de Moçambique, afirmou: «Toda a nossa literatura passou a ser um reflexo da Literatura brasileira. Quando chegou o Jorge Amado, nós tínhamos chegado à nossa própria casa.»

Vários outros artigos e intervenções são aqui reunidos e o último é exactamente aquele que deu o nome ao título «E se Obama fosse africano?»

À questão «E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?», Mia responde depois de ter manifestado a alegria até às lágrimas que sentiu quando Obama ganhou as eleições no dia 5 de Novembro de 2008. Num discurso bem irónico reflecte sobre essa hipótese, afirmando que se Obama fosse africano, um seu concorrente «(um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto e a espera para voltar a candidatar-se bem podia ser longa a contar com os anos em que mais de 15 governantes vivem há mais de 20 anos consecutivos. E como os Bushs de África não toleram opositores nem a democracia, não permitiriam sequer que se candidatasse, ou dar-lhe-iam uma tareia, seria preso, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Na verdade, na maioria dos países africanos inventariam leis restritivas a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes, tal como aconteceu ao nacionalista Kenneth Kaunda que levou a Zâmbia à independência e o governou por mais de 25 anos.

Obama é considerado negro nos Estados Unidos, mas em África é mulato, por isso seria vilipendiado na sua própria casa. No final, Mia Couto esclarece que há excepções e que Moçambique enquadra-se nos países de excepção.

Ora no mesmo dia em que Obama consegue a vitória, África continuava a ser palco de guerras contínuas e a ser derrotada militarmente, como igualmente por má gestão e pela ambição desmesurada de políticos gananciosos.

A terminar, Mia Couto deseja intimamente que a luta deva prosseguir «para que Obamas africanos possam também vencer e celebrar aí a sua vitória».

 

                                         

                                                                               Elsa Rodrigues dos Santos