Miguel Barbosa
Apologia do Silêncio
(Poesia e Pintura)
Edições Dest’Arte
Patrocínio: Jorge Linhares
Galeria Linhares
Miguel Barbosa, poeta, escritor e artista plástico, de seu nome completo, Miguel Artur de Morais e Macedo Alves Barbosa, nasceu a 23 de Novembro de 1925, em Lisboa. Filho de mãe brasileira (Rio de Janeiro) e pai português (Celorico Basto) é licenciado em Ciências Económicas e Financeiras.
Muito cedo deixou as Finanças para entrar para a carreira das letras e das artes plásticas, afirmando-se rapidamente como um dos maiores dramaturgos portugueses, e igualmente um dos mais significativos pintores da sua geração.
Tendo sido as suas peças representadas em Portugal, Brasil, Alemanha, França e Espanha, os críticos comparam-no a Ionesco, e a Arrabal, mas reconhecem a sua originalidade e irreverência, situando-o à parte de qualquer corrente ou grupo.
Contam-se sete peças de teatro:
O Palheiro
Os Carnívoros
O Insecticida
Uma Flor na Morávia
Muro Alto
O Paraíso Reencontrado
ou a Mulher que pariu a França.
O Tecni-Homem
Novelas:
Crónicas do Cavaleiro Charles
A Mulher Macumba
A Pileca no Poleiro
Esta Louca Profissão de Escritor
A Licheira
Contos:
Retalhos da Vida
Manta de Trapos
O Adesivo
As Pequenas Explosões
Eróticas de um Velho
Sentimental
Vários romances policiais
Como pintor, Miguel Barbosa possui um vasto «curriculum» de exposições individuais e colectivas em Portugal e no estrangeiro,
Tem publicado vários livros sobre a sua pintura.
Apologia do Silêncio é um livro de poesia e arte que é uma homenagem pelos seus 50 anos de literatura e 45 anos de pintura.
Impresso em papel cor de rosa com desenhos de um rosa mais escuro, sobre as quais se configuram os poemas, a capa e as reproduções dos quadros de Miguel Barbosa, que se encontram no final do livro, transformam esta obra poética num precioso objecto de arte.
Os poemas iniciam-se com uma dedicatória ao Homem:
«Tivemos o mesmo caso
vivemos os mesmos silêncios
sentimos os mesmos desenganos de amor
e somos tão diferentes e iguais um do outro.».
A apologia do silêncio como interioridade e o mais profundo dos sentimentos, isto é, «a semente oculta/ de um amor/ que não é raiz/ mas já existe» é expressa nestas estrofes desse grande e único poema que constitui o livro.
«é um recriar
sem sexo
ser
que sofre
pelo que não é
e se sente
a semente oculta
de um amor
que não é raiz
mas já existe.»
(…)
entre duas cópulas
o silêncio
é a poesia que se esvai
de um poema que se apaga
no desejo que renasce
os livros sagrados
são folhas
de uma árvore morta
à espera de ressuscitar
no silêncio
os paradoxos da fé.»
Deste modo, o silêncio é não só semente de amor, como essência do ser, espaço de reflexão, força erótica, abarcando o sagrado, a fé, o pensamento filosófico e toda a dimensão humana.
E diz o poeta:
« O silêncio é uma experiência
genética
da palavra
o hieróglifo
que só o amor
poderá definir.»
Daí que a palavra e o amor se conjugam, consubstanciados no pensamento que em silêncio se reproduz.
«O silêncio
é feito de vazios
que transbordam
de uma ideia
que não se enche
em palavras
é a singularidade
da translação de sentimentos
que não se desperdiça
em virtuais estereótipos
verbais»
O poeta, imbuído sempre de um sensualismo, onde a imagem da mulher está presente no desejo e na paixão, interioriza no silêncio as suas emoções.
«o silêncio
é a breve passagem de um corpo
de mulher
crescendo no horizonte
do desejo
a fuga à promiscuidade
da palavra
que deforma os sentidos
a paixão
é sempre
um gesto de silêncio
e de culpa
no final de um acto
de amor
Miguel Barbosa não desiste de tentar definir o silêncio que
«é corpo e sangue
pesa e dói
porque se sente
voz íntima.»
(…)
cada silêncio
é um momento
de reflexão
antes de ir parindo
uma ideia.»
Nessa relação do silêncio com o pensamento e com a palavra, o poeta instaura o princípio da contestação e da provocação, energias necessárias à vida.
«pensar
é uma atitude contestatária
e provocatória
de silêncio
à palavra
que limita e codifica
os seres e as coisas
que podem até não existir mais
nem nunca chegar a ser corpo
porque o conteúdo formal
da irrealidade do símbolo
se torna vida.»
E mais adiante, o poeta conclui:
«só o silêncio
completa o sonho
e nos aproxima da razão
do poema.»
A terminar o livro, três poemas. Um, dedicado a Camões, outro, que começa por um «que» («que doloroso é pensar») e se entrelaça com vários «ses», isto é, as hipóteses terríveis que estiveram para acontecer de destruição do mundo.
«que se kennedy e Krushev
tivessem accionado
o botão vermelho»
Ironicamente termina, dizendo:
«eu terei, amor, de voltar para
a caverna
a fazer machadinhos de ques»
No último poema, «Epitáfio a Lisboa» é um olhar sobre Lisboa, vivido na juventude com recordações «a encher a eternidade vazia»/ de silêncio/ que já foi vida»
Epitáfio que é também uma homenagem ao amor da juventude e simultaneamente pela sua dimensão imagética e criadora,
«tentando ouvir os gemidos
do Universo a ser parido
que se repercutia
pela eternidade
do tempo
pensávamos por ser jovens
ir ultrapassar
as nossas limitações humanas
e em silêncio
fazíamos amor.»
A poesia e as belas imagens do mestre poeta e pintor, Miguel Barbosa, conjugam-se com a beleza gráfica do livro para oferecerem ao leitor este longo poema pintado nas suas cores preferidas de vermelhos, verdes negros e brancos.
Elsa Rodrigues dos Santos
Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa
(Lido aos microfones da RDP Internacional em finais de Janeiro de 2005)