Miguel Sousa Tavares
Não te deixarei
morrer, David Crockett»
Lisboa, Oficina do Livro, 22ªedição, 2005 (1ª ed. 2001)
Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto. Começou pela advocacia que abandonou pelo jornalismo e, a pouco e pouco, pela escrita literária.
É autor das seguintes obras:
Um nómada no Oásis (escritos políticos)
Sahara- A República da
areia-(reportagem)
Anos Perdidos- crónicas
Equador- (Romance com mais de 220.000 exemplares vendidos em Portugal e editados na Holanda, França e no Brasil
Sul – Reportagens de
viagem
O segredo do Rio –
conto infantil
Não te deixarei morrer, David Crockett foi publicado em primeira edição, em 2001, e em 2005 publica-se já a 22ª edição.
O título do livro é extremamente apelativo porque se trata de uma declaração, quase um juramento, que se faz a um indivíduo, David Crockett, que o leitor tem curiosidade imediata de conhecer.
Ilustrando o conteúdo do livro, a epígrafe «The past is a foreign country» (O passado é um país desconhecido) aponta-nos imediatamente para uma escrita memorialista.
Inicia-se com um texto poético, todo ele em forma de interrogação, procurando desvendar um «tu» estranho que se deleita com a violência, caminhando sempre em frente, sem nunca parar.
(«Quem és tu que danças descalço na noite escura? Porque é que te deleitas com o cheiro e o sabor a sangue dos corpos esventrados e inertes?»)
Mas esse «tu» afinal interroga-se igualmente sobre o mistério da vida e da própria violência e torce-se de dor. («Caminhas sobre o fogo. Incendeias as searas (…). Olhas para o céu com o olhar vazio e perguntas porquê vezes sem conta, até caíres de exaustão (…) Nunca paras. Nunca te deténs. Nunca olhas para trás, só vês em frente um caminho interminável»).
E termina com uma nova interrogação: «Quem és tu que, no crepúsculo de chumbo baço, uiva de dor?».
Este texto configura-se igualmente como uma grande epígrafe que tem como função literária alertar o leitor para os vários temas que o autor pretende abordar. É uma espécie de técnica de «mise-en-abîme», como dizem os franceses, que contém dentro de si os indícios do que será a súmula da obra.
A seguir, o escritor explica o título. David Crockett era uma personagem dos livros de quadradinhos que o autor lia por volta dos seus oito ou nove anos e que sempre o encantou, acompanhando-o no seu imaginário. David Crockett era o desbravador do Kentucky e do Tenessee, que haveria de morrer na mítica batalha do Forte Álamo.
Nessa história, o protagonista sofria uma emboscada por um grupo de índios, levava com uma machadada e era transportado para um acampamento, onde uma linda índia cuidava dele, molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu sono. E a passos, ela murmurava: «Não te deixarei morrer, David Crockett».
Durante anos, essa figura foi encarnada por ele próprio, autor, que queria conhecer o mundo, viver aventuras terríveis e desvendar mistérios. Fatalmente teria de sofrer muito, mas encontraria sempre a tal índia que cuidaria das suas feridas e não o deixaria morrer.
Com o tempo ele viria a compreender que o David Crockett representava a sua infância, «uma espécie de pureza inicial, um excesso de sentimentos e de sensibilidade, a ingenuidade e a fé, a hipótese fantástica da felicidade para sempre», segundo palavras suas. Então, no sentido onírico da vida, ele acabava por se transformar na própria índia que não podia deixar que se apagasse essa imagem do sonho, preservando a crença na felicidade.
O livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos foram publicados na revista Máxima. Textos dispersos, mas que têm um fio condutor e coerência, pelo menos como procura continuada de um passado que reteve na memória ou como o sonho que não se deixa morrer.
São cerca de 38 pequenas histórias, versando vários assuntos e vários locais, mas quase todas tendo como núcleo central o amor. O amor daquele pai que nunca confessara ao filho, nem por um gesto de ternura o seu imenso amor por ele, encoberto numa «frieza de rochedo», e que só à hora da morte, lhe dissera que aquele filho era tudo para ele. Ou o amor, entre infidelidade e fidelidade, dir-se-ia eterna, de um amor para lá das conveniências e do casamento formal, descrito em páginas magistrais nos seus dois textos, «Fidelidade» I e II. Ou a frustração dos dias e horas que se sucedem a um divórcio, a lágrima que corre sem querer na recordação deixada por uma fotografia, um brinquedo do filho que partiu com a mãe, enfim, a sensação da solidão difícil de colmatar. Mas é igualmente o amor pelo filho que se leva ao futebol e de que se gosta de espreitar à noite o seu sono de criança ou a lembrança da mãe poeta que gostava de recitar em voz alta poemas pela noite fora e que lhe ensinou sobretudo a reparar nas coisas e a senti-las por dentro.
Num registo autobiográfico, Miguel Sousa Tavares oferece-nos belas páginas em forma de crónica literária, onde se insinua na alma das suas personagens ou dos lugares que visita, o deserto do Sahara, Marraqueche, Nova Iorque, o Norte da Europa, dando igualmente a conhecer-se como alguém que não desiste da «hipótese fantástica da felicidade para sempre.»
Elsa Rodrigues dos Santos