Miguel
Sousa Tavares,
Sul, (Viagens - Texto e
Fotografias)
Novembro,
2004. 230 p.
Depois do sucesso de Equador, Miguel Sousa Tavares publica agora este belíssimo livro de viagens que se intitula Sul, porque é exactamente para o Sul que a sua fantasia e o desejo imenso de conhecer o mundo o levam.
«O sul é uma porta de avião que se abre e um cheiro inebriante a verde que nos suga, o calor, a humidade colada à pele, os risos das pessoas, o ruído, a confusão de um terminal de bagagens, um excesso de tudo que nos engole e arrasta como uma vaga gigantesca», diz-nos este cronista de viagens que se assume como tal, mas que é mais concretamente, neste livro, um notável contador de histórias.
Aprenderá com sua mãe, Sophia de Mello Breyner, a viajar. Uma frase o marcou quando, uma tarde, estando ambos na Plazza Navona em Roma, e Miguel manifestando uma certa pressa em prosseguir para ver outras coisas, sua mãe fez-lhe notar:
«- Miguel, viajar é olhar.»
E, de facto, viajar é «spectare», como diriam os latinos, olhar de fora para dentro, conhecer o outro para que, no fim dessa aventura, somando tudo o que se viu e se aprendeu, o seu «eu» ganhe uma dimensão maior.
O simbolismo da viagem resume-se, afinal, na indagação da verdade, da paz, da imortalidade, na busca da descoberta de um centro espiritual.
Não sabemos se Miguel, viajante errante por esse mundo, em contacto com outras raças e outros povos, encontrou o seu centro espiritual. Pelo menos, perspectivou o seu mundo de outra maneira, relativizando o homem, respeitando as diferenças. Por isso, ele é mais tolerante, nas suas crónicas, com o homem africano, indiano, árabe, hinduísta, muçulmano, do que propriamente com os seus concidadãos, quando pressente neles mesquinhez camuflada pela velha arrogância europeia, sabedores e senhores da civilização.
Mas, como o próprio autor declara, «este é um livro que reúne apenas a parte boa daquilo que me coube em sorte ver e contar»
Inicia, pois, a sua viagem em São Tomé e Príncipe em Julho de 2004, nomeando este capítulo «Ruínas do Império».
Contempla uma casa em ruínas que fica numa ponta da ilha e, que, trinta anos antes, fora a sede e a habitação do administrador da roça. Era, pois, a chamada Casa Grande construída com a sua frente para o mar, num lugar de idílica beleza.
«Quem construiu esta casa quereria com certeza viver aqui, quereria talvez morrer aqui», diz o escritor, e solidariza-se com a memória que está impressa nessa casa esventrada.
«Sempre tive um fascínio pelas casas em ruínas (…). Pelas casas e pelas ruínas. (…) Sempre tive um fascínio igual por todos «os senhores Martins» do Império (…) Os que ergueram casas, partiram pedra, derrubaram mato, cultivaram café, fizeram terraços para olharem o mar por onde nunca regressaram».
E se o autor tem plena consciência do que representou a política colonialista, sobretudo entre os roceiros de São Tomé e Príncipe (leiam-se as 500 e tal páginas de Equador), no entanto, passados que foram 31 anos, vistos de fora do tempo, o autor imbuído da sua humanidade, afirma:
«O meu fascínio consiste apenas em ver e imaginar. Não tento compreender e, menos ainda, julgar: sei que mataram, que estropiaram, que maltrataram. (…) Mas, todavia, não julgo.(…) porque é uma insuportável arrogância moral julgar a História com a vantagem do tempo,»
O segundo capítulo é dedicado à Amazónia, a última fronteira».
O autor conta-nos que começara a viajar na Amazónia através da pintura de Caspar. David Friedrich e no relato de Alexandre de Humboldt, tornando-se uma obsessão conhecê-la, mas não como turista. O seu sonho era fazer um filme de 52 minutos sobre a história da colonização portuguesa na Amazónia, desde o marquês de Pombal até ao esplendor da época da borracha, no início deste século. Era um sonho ambicioso, pois tinha custos elevadíssimos.
Encontrou, porém, em Lisboa, o Presidente da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) que se entusiasmou com o projecto.
E um mês depois ele estava em Brasília com um operador de câmara da RTP, João Filipe, e 200 kg de bagagem e equipamento.
Finalmente, fora visitar Carajas e, pouco depois, a Serra Pelada. A cidade dos mineiros era uma visão perfeita de Far West onde todos os sectores constituem negócio privatizado.
Depois, foi a vez de visitar, com a comissão que o esperava, a aldeia do Kaiapós do Xicrim do Cateté.
Quando a avioneta chegou àquele local e saíram do avião, «foram engolidos pelos índios e pela selva», segundo palavras suas.
A aldeia tinha cerca de 200 índios semi-nus de arcos e flechas, sem nenhuma estrada ou caminho que partisse dali, rodeado de uma floresta virgem e a povoação mais próxima a mil quilómetros.
Apenas um branco, o José Luís Veríssimo da FUNAI que vivia com os Kaiapós do Xicrim. Era de boas famílias e formara-se em Direito. Menino do Rio de Janeiro e do Ipanema, tinha deixado, porém, tudo: a advocacia, a família, o conforto, apaixonado pelo povo índio. Casou-se com uma cabocla meio-índia e ali estava a trabalhar em favor dos índios. As condições em que se vive nesta longínqua e perdida parte do mundo são arrepiantes aos olhos de quem tem tudo o que a civilização e a tecnologia modernas permitem.
O silvo dos insectos, morcegos e baratas voadoras, preenchendo o ar e o espaço de quem dorme e come, a mata, a selva, o cheiro a terra, as chuvadas monumentais e as tempestades são o dia-a-dia que surpreendem quem ousa penetrar em tais paragens.
Assim aconteceu com o narrador na semana em que aí esteve para filmagens. A culminar, a viagem de regresso na avioneta, cuja hélice accionada por uma corda, dava energia ao voo no meio de uma tempestade e de uma chuvada que desabava abruptamente e poços de ar aterradores. Chegou-se, finalmente, à pista de Carajas, a bom termo, pela perícia daquele modesto e incógnito piloto, talvez um dos maiores do mundo, como deveriam ser considerados os pilotos da Amazónia pelos perigos que enfrentam todos os dias, faz notar o autor.
E são histórias assim que nos acompanham nestas emocionantes viagens a longínquas paragens como o Egipto, trazendo-nos um pouco da história milenar desse país que o autor sintetiza nestas palavras:
«Um povo de escravos e de reis construiu uma civilização sumptuosa e esmagadora onde, a cada passo, os vivos são convocados ao mundo subterrâneo dos mortos. Fica a cinco horas de avião e a cinco mil anos de distância.»
O capítulo «Goa, sonho impossível» interessou-me particularmente, talvez pelas minhas raízes goesas, talvez pelas recordações que tenho desse pequeno paraíso perdido, berço de minha mãe, que visitei há cinco anos.
«Trinta anos depois da anexação, restam quase só as pedras para fazer fé que estivemos em Goa 450 anos. Entre a desconfiança e o desleixo dos portugueses, só os «goeses» - uma minoria muito especial - persistem em manter viva a memória», lembra o autor em guisa de introdução do capítulo.
Revivi, assim, a minha estadia no Forte Aguada, em Pangim, do outro lado do Rio Mandovi, hoje um simpático hotel com vários bungalós e uma piscina virada para à praia, Forte que no tempo colonial servia de quartel às tropas portuguesas. Aí também o narrador se instalara, e donde todos os dias partia em excursão para as várias regiões do Estado de Goa., inclusive a Velha Goa, onde se encontra o Bom Jesus e a Igreja com o célebre túmulo de S. Francisco Xavier.
Goa ficou preservada: «Nehru e os seus sucessores respeitaram sempre as diferenças culturais, históricas e religiosas de Goa. Nenhuma estátua foi derrubada, não se destruíramos arquivos, nem os retratos dos vice-reis», lembra o narrador. Por outro lado, recrimina Portugal pelo facto de haver hoje apenas uma elite de 2% de goeses que fala português, afirmando:
«Se hoje há uma elite apenas de cerca de 2% de goeses que fala português, a culpa é sobretudo de Portugal que gasta milhões de contos com um Centro Cultural em Belém, mas que não tem verbas disponíveis para enviar livros portugueses para Goa nem para custear as despesas de um leitor no Departamento de Estudos Portugueses».
Durante muito tempo pensei, de facto, que assim era, mas quando estive em Goa, em 98, por altura das comemorações dos Descobrimentos, com uma comissão de Professores, apercebi-me de que os indianos contestavam as comemorações e a nossa presença em Goa. Por isso não teria sido fácil ao Estado Português colocar lá um leitor ou um Centro Cultural para dar continuidade ao estudo da nossa língua.
Também me interessou o capítulo «Um rio há-de correr em Cabo Verde», pelos estudos literários que me ligam fraternalmente a este povo e a esta terra. Miguel Sousa Tavares marca o ano de 1995 como tendo realizado esta viagem. Por isso, desde essa altura até agora algumas modificações se processaram, mas, tirando o aeroporto do Sal que é novo, pouco têm crescido cidades como a Praia e o Mindelo. Nesta crónica repete-se a crítica a Portugal por não investir aí apesar das promessas dos governantes
Mas essa falta de apoio já é habitual de há muitíssimas décadas. Lembremo-nos das sucessivas fomes em Cabo Verde, devido às secas, pelo menos até finais dos anos 50, onde, em quase todas as ilhas morria cerca de 19% da população, deixadas ao abandono pelo governo central de Portugal.
E neste tom, dividido entre a descrição dos ambientes e o comentário sócio-cultural, Miguel Sousa Tavares, tentando captar a alma destas gentes, vai - nos deliciando com as suas impressões, seja dos Jardins de Alá e de Alhambra, onde todo o esplendor do mundo árabe aí está reunido, seja de Marraquexe, onde o autor situa a bela história do inglês John Hopkins. Penetra ainda no coração de África, na Costa dos Espíritos, isto é, na Costa do Marfim. Prossegue por São Tomé e Príncipe, tão do seu agrado, constatando o contraste entre uma natureza exuberante e aquilo que os homens destroem, acreditando que o grande problema deste país lusófono é a falta de democracia. Seguindo ao longo da Costa do Magrebe, o avião que o transporta irá aterrar em Tunes. Viajando pela Tunísia, ressaltam os brancos e azuis, numa harmonia de sonho «deste fantástico país de praias, montanhas, desertos, cidades árabes, aldeias berberes e templos romanos.»
O Nordeste brasileiro - Natal. Fortaleza, com as suas desertas, imensas e belas praias, oferecem igualmente o pitoresco e a magia do Sertão, lembrando o célebre cangaceiro Lampião, ou o moderno Gavião.
A beleza imortal de Veneza é também aqui celebrada, bem como a ilha paradisíaca de Guadalupe.
De novo, a magia das noites africanas e, finalmente, o diário de bordo de 36 dias em caravana na pista para Tamarasset na travessia do deserto, dificuldades e equívocos, a polícia suspeitando que eles tinham relações com a Frente Polisário, enfim, os ingredientes necessários de uma grande aventura.
Em resumo: Sul é o livro de Miguel Sousa Tavares que, tal como Equador, nos dá o inefável da leitura por uma escrita de grande elegância e com a emotividade, o imprevisível e o comentário oportuno que a literatura de viagens requer.
Além disso, o livro tem uma apresentação lindíssima com excelentes fotografias que o enriquecem, bela prenda para 2005.
Esta é a minha opinião, mas eu sou suspeita, porque aprecio o estilo e a inteligência dos conteúdos, quer das crónicas, quer do romance, conferindo-lhes a qualidade do grande escritor.
Elsa Rodrigues dos Santos
Recensão lida aos microfones da RDP
Internacional, emitida para todo o mundo, em
21/01/05, no programa da SLP «Falar Português»