Crónica
O Artigo e os nomes próprios
Teresa - Então hoje ainda vai continuar com o valor estilístico do artigo?
Elsa – Dentro dessa temática irei começar com o artigo e os nomes próprios.
Vejamos estes dois exemplos:
No primeiro caso, a pessoa nomeada, embora referida elogiosamente, reveste-se de um distanciamento que não existe no segundo caso. No segundo caso, o sujeito, «o Fernando», indicado pelo artigo o, torna-se familiar.
Desta forma, evidencia-se um tom afectivo nos nomes próprios precedidos do artigo.
E recorro-me ainda a Rodrigues Lapa que dá, sobre esta matéria, como exemplos, a passagem duma reportagem jornalística sobre um julgamento:
Ex: O libelo termina dizendo que o José Fernandes e o Manuel Vicente são verdadeiramente culpados do furto dos cereais pelo que pede a condenação dos réus.»
Os nomes dos condenados vêm precedidos do artigo, porque se não tivessem, ganhariam uma distinção imprópria de uns pobres condenados por furto de cereais.
Assim, o jornalista, enunciando os seus nomes com o artigo, «carregou-os de intenção pejorativa, deu à expressão um cunho pessoal, afectivo de marcada malevolência.», segundo palavras de Rodrigues Lapa.
Teresa - E ainda há mais algum caso sobre esta matéria?
Elsa - Sobre o valor estilístico do artigo ainda temos a considerar o artigo nas enumerações.
Também aí nas enumerações, o artigo desempenha um papel expressivo importante que convém conhecer.
Por exemplo se dissermos, «conferenciaram os chefes do exército inglês e americano», significa que só havia um só exército inglês e americano, reunidos sob o mesmo comando. Para evitar equívocos, podemos utilizar o adjectivo composto «anglo-americano» para designar um só exército.
Se quisermos designar os dois exércitos separadamente, diremos: «Os chefes dos exércitos inglês e americano.» ou repetimos o artigo da enumeração. Ex: Os chefes do exército inglês e do americano. Por isso, a repetição do artigo nas enumerações acentua o valor de cada elemento.
Quando na enumeração se encontram adjectivos precedidos por artigo, este faz valorizar a sua representação. Ex. O céu estava límpido: nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul.
Teresa - E então se disséssemos «o vasto e imaculado azul» e não repetíssemos o artigo não teria o mesmo efeito?
Elsa - Não, porque as duas imagens fundem-se num todo e apagam-se. Passam a funcionar como um adjectivo composto abstracto: vasto-imaculado. E, na verdade, a composição abstracta tem um fraco valor expressivo. Por isso, a frase, com a repetição do artigo antes dos adjectivos torna muito mais expressiva as duas representações: «O céu estava límpido: nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul.»
Teresa - E é tudo por hoje?
Elsa - Não. Ainda é importante referirmo-nos à importância da repetição do artigo como forma de pôr em evidência a ironia das situações.
E termino com uma passagem de um poema satírico de Mendes de Carvalho, intitulado «Os/As».
Os dos bilhetes postais
Os dos cartões de visita
Dos anúncios nos jornais
Os das palavras cruzadas
dos retratos pornográficos
Do amor em dias certos
Do amor em certos dias
Os que não contam a fita
Os que só falam dos filhos
E lá vem o retratinho
Os que são muito machistas
As do furor uterino
Os caçadores de autógrafos
Os que sabem sempre a última
Os dos parabéns por tudo
Dos sentimentos por nada
Os que mandam boas-festas
(…)
Os que eles é que sabem
Os que não sabem pevide
Os que se riem por tudo
Os que não riem de nada
Os da lágrima na esquina
(…)
os que só falam de si
os que só falam dos outros
os mais isto e mais aquilo.
Elsa Rodrigues dos Santos