Orlando Neves

Dicionário de Superstições

Notícias Editorial

 

            Orlando Neves é um notável poeta, mas ocupar-me-ei dele aqui, neste texto, não como poeta, mas como dicionarista, um dicionarista original, porque não se trata de ser autor de um dicionário do léxico português, mas de uma área que compreende o imaginário português, as suas crenças, a sua forma de exprimir, o seu fantástico, o seu humor.

             Assim, Orlando Neves é autor de Dicionário de Expressões Correntes, Dicionário da Origem das Palavras, Dicionário do Palavrão e de Outras Inconveniências (co-autor com Carlos Pinto dos Santos), Dicionário dos Nomes Próprios, Dicionário do Nome das Coisas e Outros Epónimos e, finalmente, o Dicionário de Superstições.

            É sobre este último de que vamos tecer algumas considerações.

            Orlando Neves, no texto introdutório, apresenta os objectivos deste dicionário.

            Citando o Dicionário de Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda, dá-nos o significado de superstição como um sentimento religioso baseado no temor ou na ignorância e que induz ou conhecimento de falsos deveres, ao receio de coisas fantásticas e
à confiança em coisas ineficazes, crença em presságios tirados de factos puramente fortuitos”.

            Por outras palavras, anota Orlando Neves “a superstição é a crença no poder maléfico ou benéfico de um objecto, ou de um acto ou de uma ideia, sem que haja para isso nenhuma prova que confirme a verdade da mesma. Tais crenças são, portanto, irracionais e infundadas e nascem devido à ignorância das causas reais e naturais dos fenómenos”.

            E se hoje já não acreditamos tanto em superstições como há mil anos, no entanto, queremos ainda obter respostas para o que não compreendemos. E mesmo nos países civilizados, apesar de se levar para a brincadeira as superstições antigas, outras surgem, imbuídas de uma capa de “cientificidade” para as tornar credíveis, sobretudo quando servem de negócio, envolvendo pessoas mais fragilizadas.

            Vejam como cada vez mais proliferam a astrologia, as magias brancas e negras, a bruxaria, o satanismo, os discos voadores, as experiências sensoriais, as crenças e seitas religiosas. O homem neste mundo actual cada vez mais complexo e caótico necessita de respostas, para o seu equilíbrio de uma ordenação espiritual.

            Então o homem comum prefere ter essas respostas, mesmo que fictícias e acientíficas do que não ter nenhumas.

            Neste dicionário, Orlando Neves teve de fazer deste universo uma selecção rigorosa, elaborando um critério em que excluía as superstições que entravam na área na área das fés religiosas, isto é, relativas a santos, milagres, santuários etc. Excluiu também a das falsas medicinas populares, da numerologia, da astrologia, das artes divinatórias. Ficou-se apenas pelas mais conhecidas e que contêm pequenas histórias curiosas, mais, digamos “irracionais” e com algum humor.

            Vejamos alguns exemplos:

            Acácia (p. 15) – Segundo uma tradição gaulesa, as jovens denunciavam a sua virgindade e, simultaneamente, o desejo de a perderem, colocando na cabeça uma coroa de ramos de acácia, semelhante à que se supõe ter sido a coroa de Cristo. Os rapazes aproximavam-se e picavam-se nela. Se estivessem dispostos ao casamento ofereciam à jovem escolhida uma coroa de folhas de laranjeira. Curiosamente, no Canadá francês, para onde deve ter sido levada a tradição, os jovens acreditam que se presentearem a namorada com uma coroa de acácia ela ser-lhe-á fiel para toda a vida.

           

Álcool (p. 22) – Na Irlanda, porque o álcool é considerado fonte de energia, é um meio de comunicação com o outro mundo. Por isso, aos sábados, do crepúsculo à meia-noite, é o momento dedicado às “libações” espirituais. Jamais se deve mexer uma bebida alcoólica com uma faca – ter-se-ão violentas dores de barriga.

 

            Anão (p. 28) - No folclore dos países nórdicos, ver um anão é uma visão benéfica porque ele encarna as forças da Natureza (recorde-se branca de Neve e os Sete Anões). Mas noutros folclores, apesar da sua aparência ingénua, são símbolos de forças maléficas. Segundo Mircea Eliade: “nas mitologias do Norte os anões tinham fama de grandes guerreiros, o mesmo acontecendo com algumas fadas”. Acredita-se que a sua inteligência e o seu espírito de humor estão na razão inversa do seu tamanho e daí que os poderosos os contratassem como seus conselheiros. Entre algumas superstições mais populares, destaca-se a que prognostica a secura do leite numa mulher que cruze o seu olhar com o de um anão.

 

            Balde (p. 40) – Se ao sair de casa encontrar um balde cheio de qualquer líquido (?!) terá um dia de sorte. Mas se ele estiver vazio, as coisas vão correr-lhe mal.

 

            Barba (p. 41) – Superstição enganosa que perdura ainda entre os jovens menos esclarecidos: para lhes crescer a barba mais rapidamente devem esfregar o rosto com pedra-pomes. 

 

            Bater com a porta (p. 41) – Imagine que um espírito benéfico quer entrar em sua casa. Se bater violentamente com a porta corre sérios riscos de o esmagar e, obviamente, perdem-se os benefícios que ele lhe traria. O que será augúrio de desgraças próximas. Pelos menos, em muitos locais europeus (e entre nós) acredita-se seriamente nesta superstição. À cautela, convém empurrar com leveza a porta e permitir a entrada do espírito, sem ferimentos graves.

 

            Bater em madeira (p. 42) – Praticar este gesto é superstição antiquíssima, talvez originada no carácter sagrado das árvores que os nossos antepassados lhes atribuíam ou até no facto de ter sido de madeira a cruz de Cristo. Segundo os celtas as árvores possuíam o poder de afastar os demónios e bater na madeira afastava-os. Assim, sempre que se crê que algo de mau nos pode acontecer (doença, morte, etc.) é conveniente bater três vezes na madeira com os nós dos dedos, de preferência, até, na parte oculta do tampo de uma mesa. No teatro, esse gesto é seguido, religiosamente, pelos actores sempre que alguém profere a palavra “azar”.

 

            Café (p. 52) – Derramar café numa mesa significa que se passarão dificuldades no futuro. Se o açúcar, ao derreter-se, forma um círculo no fundo da chávena, é prenúncio de entrada de dinheiro e de bom tempo. Ler o destino na configuração das borras de café que ficam no recipiente, assim como mas bolhas que se formam à superfície do café, são métodos de adivinhação muito antigos. Por exemplo, se as bolhas se deslocam na direcção do bebedor, isso trar-lhe-á sorte, se forem em sentido contrário, é mau augúrio. Se se deitar açúcar na chávena antes do café, o risco é grande – ficar-se-á solteiro.

            Cenoura (p. 61) – “A cenoura faz os olhos bonitos” e torna a visão mais perfeita é, talvez, a superstição mais conhecida, não destituída de total razão científica, dada a vitamina A que possui. Menos científica é outra superstição: a cenoura ter efeitos afrodisíacos.

 

            Dente (p. 77) – Se uma criança nasce com um dente ou mais, é considerado um bom presságio: Será corajoso e inteligente. Se os primeiros dentes surgem no maxilar inferior, será alegre. Se os incisivos forem compridos e largos, tornar-se-á célebre. Se os caninos forem compridos e pontiagudos, será ambicioso. O número de dentes que uma criança tenha ao completar o primeiro ano de idade será o número de irmãos que virá a ter. Sonhar com um dente que cai é sinal de morte de parente. Se o marido tem uma dor de dentes súbita, a mulher está grávida.

 

            Pestana (p. 147) – Quando cai uma pestana, deve-se pô-la nas costas de uma mão, fechar os olhos e soprar três vezes para a afastar, formulando um desejo ao mesmo tempo. Se ela voar para cima, o desejo será realizado; se cair directamente no chão, o desejo não se cumprirá. As mulheres e os homens que têm pestanas compridas são grandes amorosos.

 

            Vestir (p. 170) – É aziago começar a vestir qualquer peça de roupa pelo braço ou pela perna esquerda (esse é o lado do diabo), o mesmo sucedendo se se apertam botões nas casas erradas. Mas dará sorte vestir uma peça de roupa do avesso, contando que não se dispa imediatamente. Dá também azar cozer uma peça de roupa clara com linha escura.

                                                                                 

                                                                                         Elsa Rodrigues dos Santos