Para Além do
Acordo Ortográfico
A discussão sobre a actual
desordem escolar, que tem dominado a Comunicação Social, deixou um pouco para
segundo plano a questão da iminente promulgação definitiva pelo Governo
Português do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Este mesmo Acordo
que, afinal, já não é tão novo quanto isso, visto ter sido concluído em 1990,
aprovado no Parlamento em 1991 e, pelo seu artigo artº 3º, deveria mesmo ter
entrado em vigor a 1 de Janeiro de 1994.
Contudo, por falta de cumprimento
de certas diligências formais, acabou por não entrar em vigor na data prevista,
caindo, depois, num certo esquecimento, para regressar agora, com algum
alarido, ameaçando finalmente tornar-se letra de lei.
Grande parte das despesas
culturais do novo debate tem pertencido ao nosso distinto Deputado Europeu
Vasco Graça Moura, autor muito reputado, como sabemos, pela variedade, extensão
e alta valia da sua produção literária, seja na Poesia, como autor e como
tradutor de clássicos, actividade em que conta com vários prestigiosos prémios,
nacionais e internacionais, que atestam a sua incontestável categoria intelectual,
seja no romance, ou no ensaio, para já não mencionar a sua permanente
intervenção cívica nos meios de Comunicação Social.
Aqui lhe reitero, por isso,
a minha natural admiração, por tantos méritos reunidos, de que nos tem dado abundantes
frutos, para nossa pessoal fruição.
No plano cívico, tampouco
esqueço o apoio que prestou à causa da condecoração condigna de José Pedro
Machado, objectivo em que tive o grato prazer de me empenhar, com algumas –
poucas – pessoas, mas que, para nossa espiritual compensação, acabou por ser
totalmente coroado de êxito, no ano passado, no dia 10 de Junho, dia de
Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo Mundo.
Todavia, não deixo de
reconhecer a sua, por vezes, excessiva colagem a certas posições políticas do
PSD, defendendo pessoas e opiniões completamente irrelevantes, num esforço
generoso, mas inglório, desbaratando talento em argumentações engenhosas,
porém, grandemente infundadas no campo político e, de resto, absolutamente
improfícuas, que apenas lhe têm granjeado difusa animosidade, fora da área
política do PSD.
Leio sempre as suas
crónicas no Diário de Notícias, com particular atenção as que dedica ao Acordo
Ortográfico e prezo bastante a sua opinião, mesmo quando dela discordo,
sobretudo no âmbito político.
Quando, aqui há sete anos,
se publicou o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, sob a chancela da
Academia das Ciências de Lisboa e a coordenação do Prof. Malaca Casteleiro, foi
também Vasco Graça Moura quem, com maior fundamento, acutilância e sentido de
oportunidade, lhe apontou as insuficiências, as omissões, as incoerências e os
múltiplos desacertos de que enfermava.
Tais desacertos eram
patentes, quer no acolhimento de plebeísmos grosseiros e de neologismos ainda
sem aceitação generalizada, quer no aportuguesamento discutível de certos
termos ingleses, quando não optou pela sua inclusão na forma inglesa pura, como
se fora um Dicionário de Inglês-Português e não um dicionário, até com
pretensão normativa, do Português Contemporâneo.
No entanto, considero que
VGM, nesta renovada polémica, exagera na importância que atribui à questão da
Ortografia do Idioma, que começa por assentar numa convenção, embora não se
trate aqui de uma qualquer convenção, mas da que se sustenta no conhecimento
dos factos linguísticos característicos do Português escrito e falado, tal como
ele foi sendo formado ao longo da nossa História, aqui e nos continentes em que
ele logrou deitar raízes.
Por isso mesmo, convém que
aqueles que integram as comissões que propõem e revêem Reformas e Acordos
Ortográficos sejam profundos conhecedores dos fenómenos da Língua, dos
múltiplos factores que a influenciam, na sua evolução diacrónica, mas também da
sua génese cultural, no nosso caso, de toda a cultura greco-romana,
nomeadamente, das suas línguas veiculares, o Grego e o Latim.
Complementarmente, para o
estudo aprofundado do Português, é importante o conhecimento da língua e da
cultura árabo-muçulmana, bem como, naturalmente, o das línguas novilatinas, que
mais recentemente nele influíram: o italiano, no Renascimento, nos séculos XV e
XVI, o castelhano, em especial nos séculos XVI e XVII, em que chegou a gozar do
privilégio de segunda língua em Portugal, o francês, este sobretudo no século
XVIII, o século das Luzes, por excelência, que culmina na grande exaltação da Revolução
Francesa de 1789 e no XIX, o do enorme prestígio mundial da Literatura Francesa,
cuja influência vai prolongar-se, entre nós, até aos anos 60 do século XX.
A partir da década de 60 do
século passado, a influência do Inglês, no mundo e, em especial, em Portugal
tornou-se crescentemente dominante. Com o advento, nos anos 80, das teorias
Económicas e de Gestão, de pendor ultra-liberal, gerou-se, entre nós, uma
espécie de obsessão adoptiva de expressões e de vocábulos ingleses, de que tem resultado
grave deformação do idioma nacional.
Em algumas áreas, em
particular nas da Economia, Gestão, Novas Tecnologias, nas Técnicas de
Publicidade, Marquetingue e de Comunicação, o português usado aproxima-se já de
qualquer coisa parecida com um crioulo anglo-português, situação a todos os
títulos reprovável e totalmente inaceitável, num País que dispõe de meios,
métodos e de património linguístico-cultural mais do que suficientes para
evitar semelhante descaracterização linguística.
Naturalmente que se torna
necessário adoptar alguns termos associados a novos conceitos e a inovações científicas
e tecnológicas, mas esta adopção deve ser feita com regras, com cautelas,
podendo até temporariamente perfilhar-se os termos originais, até que na nossa
Língua se encontre a forma adequada de os traduzir.
Quando tal se revele de
execução muito difícil, se não mesmo impossível, resta-nos sempre a solução do
aportuguesamento dos vocábulos ingleses, conformando-os com as regras próprias
da formação vocabular do Português, com total respeito da índole do idioma.
Estas simples observações,
desde sempre recomendadas pelos maiores estudiosos da Língua, já em diferentes
fóruns as tenho repetidamente recordado. São elas de compreensão imediata,
porque provêm do repositório comum de bom senso existente de forma equilibrada
em praticamente todas as pessoas, como o arguto Descartes, há quase 400 anos,
afirmou no seu celebérrimo «Discurso do Método».
Nas anteriores comissões
técnicas portuguesas que estabeleceram Reformas e Acordos Ortográficos, esses
requisitos de múltiplos saberes filológicos, clássicos e modernos, eram
amplamente existentes e como tal reconhecidos.
Na primeira reforma
ortográfica oficial do Português moderno, em 1911, participaram nomes cimeiros
da Filologia nacional, como Aniceto Gonçalves Viana, Adolfo Coelho, José Leite
de Vasconcelos, Cândido de Figueiredo e José Joaquim Nunes, todos com larga
obra realizada no estudo do Idioma.
Igualmente, na comissão que
elaborou o último Acordo, ainda em vigor, o de 1945, pontificava Francisco
Rebelo Gonçalves, Professor ilustre da Universidade de Coimbra, senhor de
vastíssima cultura humanística clássica, trunfo capital no domínio dos estudos
da Língua Portuguesa.
Na tentativa de
estabelecimento de novo Acordo, em 1986, e no Acordo de 1990 coube ao Prof.
Malaca Casteleiro a chefia da comissão científica portuguesa. Estimo que este
nosso especialista nas questões linguísticas tenha conhecimento equiparável ao
dos seus antecessores, sendo certo que goza de tal reputação.
Mas, pelos frutos se
conhecem as árvores, e eles, nesta específica matéria, não têm sido nada
convincentes. Desde logo, pelas inovações ortográficas que se quiseram inculcar
com o Acordo de 1986, muito mais radical, reconheça-se, que o de 1990, que
resulta da reformulação daquele, na sequência das críticas levantadas, em
Portugal e também no Brasil.
Relembre-se que esse Acordo
frustrado de 1986, que tanta celeuma gerou, sobretudo em Portugal, na sua
presunção simplificadora, preconizava a quase completa abolição dos sinais
diacríticos, originando enorme confusão, em particular, nas palavras paroxítonas
(graves) e proparoxítonas (esdrúxulas), bem como propunha regras muito
criticáveis acerca da hifenização das palavras.
O Acordo de 1990, que agora
nos apresentam, surge-nos, nesses aspectos, bastante mais benigno, para a nossa
solicitada aceitação, embora nele seja insofismável a sua geral cedência à
grafia brasileira, de que nos aproximará bastante, num esforço de unidade
ortográfica claramente desigual.
Custa-nos, sem dúvida, a
inovação da queda das chamadas consoantes mudas, c e p, que, para os
portugueses, mantinham na Língua a evocação da pronunciação aberta das vogais
anteriores, em vocábulos como acção,
acto, acepção, baptismo, concepção, correcto, dilecto, direcção, optimismo,
optimizar, perspectiva, projecto, prospecto, etc.
No Brasil, que já delas
prescindiu, tal supressão não trará perturbação nenhuma, tanto mais que lá
praticamente todas as vogais são pronunciadas como abertas.
Em Portugal e nos novos
Estados Africanos de expressão oficial portuguesa não é assim, verificando-se,
antes, certa tendência para o fechamento das vogais presentes nas sílabas
átonas.
Daí o natural receio sentido
por muita gente de que tal alteração venha a acentuar uma tendência que,
inequivocamente, contribui para a percepção cada vez mais difícil, do português
falado, sobretudo do português europeu.
Este sintoma, aliado ao
ensino deficientíssimo da Língua, nos níveis Primário e Secundário de
Escolaridade, pode, a prazo, causar-nos imenso mal, deixando-nos, cada vez
mais, a falar sozinhos uns com os outros, aqui, neste pequeno rectângulo da
costa ocidental da Europa, «a ocidental praia lusitana», «onde a terra se acaba
e o mar começa», nas expressões lapidares do nosso Poeta maior, Luís Vaz de
Camões, no livro que nos perpetuou, como Nação, na História do Mundo, «Os
Lusíadas».
Veja-se, a tal propósito, a
dificuldade que sentimos em perceber certos diálogos nos nossos próprios
filmes, facto resultante da nossa forma embrulhada, muito rápida, mas
trapalhona de falar, comendo, destruindo, sílabas e vogais ou tornando-as quase
inaudíveis, imperceptíveis, justamente porque não tem havido cuidado em treinar
a dicção dos actores para que esta respeite a constituição completa das
palavras, de modo a que todos os ouvintes falantes da língua as entendam com
perfeita distinção.
Se isto é sentido por nós,
que convivemos há longos anos com o fenómeno, que estamos bem familiarizados
com a pronúncia portuguesa, imagine-se o que sofrerá um falante estrangeiro da
Língua ao tomar contacto com o nosso modo de falar.
Todavia, este é um aspecto
que pode ser muito melhorado, não estando directamente dependente do Acordo
Ortográfico em vigor, assim confiássemos no papel da Escola, da Rádio e
sobretudo no da TV, em propagar bons modelos de dicção da Língua.
Neste ponto, em particular,
quando a Escola falha, tudo depois dela falha também, salvo se algumas
instituições se derem, posteriormente, ao trabalho de preencher as lacunas de
formação trazidas da Escola pelos jovens.
As reformas ortográficas
que privilegiaram a fonética da Língua, em detrimento da escrita de base
etimológica, sob o forte pretexto de que assim ficaria facilitada a
alfabetização do Povo, na verdade, introduziram neste tema uma questão
delicada, altamente discutível, que não tem cessado de nos incomodar, causando-nos
inúmeros problemas de coerência normativa no Ensino da Língua.
De notar que, na altura da
primeira reforma ortográfica de Aniceto Gonçalves Viana, em 1911, Portugal
teria cerca de 70% de analfabetos, facto que terá justificado séria preocupação
da parte das pessoas responsáveis pelos assuntos culturais do País, levando-os
a optar pela forma gráfica do idioma que consideravam de mais fácil apreensão,
por parte de populações de baixo índice cultural.
Contudo, cabe ponderar se,
como muitos levianamente pretendem, a Língua se deve escrever como se fala. Se
tal pretensão vencesse, como poderíamos conciliar tantas diferenças de
pronúncia numa simples unidade geográfica do tamanho de Portugal, com os seus
cerca de 90 000 km2?
Há lá coisa mais diversa do
que o sotaque de um minhoto, comparado com o de um transmontano, de um beirão,
de um alentejano ou algarvio, madeirense ou açoriano? Imagine-se se, sob aquele
pretexto, se quisesse instituir uma ortografia mais consentânea, mais próxima,
do modo de falar das gentes destas várias regiões de Portugal? Que barafunda
sairia daqui?
Depois, há que reconhecer
que, nos países em que se manteve uma forma de escrever de maior proximidade
etimológica, casos da França, Inglaterra e Alemanha, por exemplo, foi exactamente
aí que mais rapidamente se atingiu a alfabetização completa das populações,
demonstrando que, para este objectivo, não é essencial a existência de uma
ortografia de base fonética predominante.
De resto, em rigor, todas
as línguas conservam, na sua forma gráfica, características mistas, de base
etimológica e fonética, preponderando, numas mais que noutras, uma dessas
orientações, na sua versão ortográfica comummente adoptada pelos seus
utilizadores.
Parece assente que, para a
preservação de uma certa memória linguístico-cultural, a grafia de base
etimológica é mais adequada e porventura até mais aprazível ao nosso espírito,
que nela reconhece fortes especificidades de natureza cultural, daí que nos doa
a eliminação das consoantes mudas. Porém, se atentarmos nas grafias passadas do
Português, muita coisa, entretanto, mudou, desde o desaparecimento do grupo
consonântico sc de sciência, ao das consoantes dobradas, ao
do grupo ph, da philosophia e da pharmácia,
por exemplo, e, todavia, hoje, já ninguém reclama a sua reintrodução na grafia
actual do Idioma.
A nossa memória, no
entanto, congratula-se com a forma ortográfica primeiramente aprendida e a ela
nos afeiçoamos pela vida fora; com o tempo, inevitavelmente, as velhas
ortografias são obliteradas pelas gerações que as desconheceram na sua
aprendizagem da Língua.
Por outro lado ainda, a
questão de quem cede num Acordo é sempre problemática. Convém a este propósito
lembrar que este Acordo de 1990 só se tornou necessário, porque o Brasil não
aplicou o de 1945, apesar de o ter assinado e inicialmente homologado, para
depois o revogar, na sequência desta mesma acusação de cedência da sua comissão
técnica para com as teses defendidas pelos especialistas portugueses.
Esta guerra das ortografias
do Português não parece, na verdade, nada fácil de sanar. Nela intervêm velhos
espectros das relações históricas entre Brasil e Portugal, alimentadas do persistente
contencioso colonizador-colonizado, guerra sempre agravada por questiúnculas
sem fim suscitadas entre os especialistas do Idioma dos dois lados do
Atlântico.
Para a coesão da Língua
Portuguesa, o Acordo pouco ou nada vem contribuir. A divergência em curso entre
o português brasileiro e o português europeu não pára de se alargar, quer na
sua forma escrita quer, especialmente, na sua forma falada. No Brasil, há muito
que se faz gala nessa distanciação, acentuando e, por vezes artificialmente
reforçando, pontuais ou episódicas diferenças linguísticas.
Desde José de Alencar, por
sinal, um escritor brasileiro que pode ainda considerar-se muito próximo do
padrão clássico da Língua, apesar de ter escrito as suas obras com clara
intenção distintiva e do seu gosto extremado, mas bem explorado, reconheça-se,
dos temas índios, exotismo muito apreciado por certas correntes intelectuais do
Brasil do seu tempo, até ao chamado Movimento Modernista brasileiro, do início
do século XX, que essa vontade de diferenciação idiomática, em relação ao
português de Portugal, tem vindo progressivamente a afirmar-se e a
consolidar-se, sendo hoje uma realidade iniludível.
Nos tempos mais recentes,
pode dizer-se que esse antigo desiderato brasileiro estará já realizado ou em
vias de o estar, com a agravante, para a sua divergência da norma portuguesa,
de o Brasil ter deixado cair o respeito da Gramática, no Ensino do Idioma, a um
nível altamente preocupante, de que resulta aquele linguajar algo pitoresco,
mas cheio de incorrecções sintácticas que ouvimos nas suas telenovelas que
passam na TV portuguesa.
Cumpre reconhecer que,
mesmo num registo de língua de tom coloquial, frases do tipo «Você
já falou com o teu pai? Olha, então vai lhe chamar; vê se
não esquece; depois eu te ligo. Vira essa boca para lá, não me venha
com mais conversa, etc., etc.», hoje comuns no Brasil, corrompem o idioma
Português, seja qual for a sua norma-padrão invocada, como sempre as boas
gramáticas brasileiras consideraram.
Tais modos de falar, ainda
que de prática generalizada, hoje, no Brasil, são absolutamente incorrectos em
Português, como em qualquer outra língua de origem latina.
Se, porventura,
pretendêssemos verter estas frases brasileiras exemplificadas para francês, ou
castelhano ou italiano, mantendo a mistura algo parodiada de concordâncias que
nelas se observa, produziríamos uma mistela linguística que ninguém aceitaria
em meios regularmente alfabetizados.
Como defenderam e defendem
muitos conceituados filólogos, portugueses e brasileiros, a sintaxe, mais do
que toda a variante vocabular, é que mantém a coesão do Idioma.
Pode presumir-se que a
tendência actualmente divergente no seio do universo falante da Língua
Portuguesa, sobretudo no Brasil, não só em relação à norma europeia, mas em
relação à sua própria, consagrada em gramáticas normativas de boa reputação,
como, por exemplo, a do nosso contemporâneo Evanildo Bechara, se não houver uma
acção correctiva concertada, se não se agir com oportunidade, bom senso e maior
rigor no Ensino da Língua, nos vários Países em que ela se fala, se irá
acentuar no futuro, talvez de forma irreversível, muito mais cedo que o
desejável.
Se quisermos, no entanto,
em Portugal e no Brasil, abreviar um processo natural de diferenciação
linguística, que pode levar muitos séculos a operar-se, não precisaremos de fazer
mais nada, além de Acordos Ortográficos. Com eles ou sem eles, o processo de
divergência linguística continuará e até se acelerará, na falta de rigor no
Ensino e na prática da Língua.
Sem verdadeiro intercâmbio
cultural, sem conhecimento mútuo das realidades culturais, sem respeito pelo
património histórico e linguístico comuns, sem contacto com os escritores
clássicos do idioma, etc., não construiremos nenhuma Comunidade Linguística,
nem Cultural, nem sequer de natureza económico-comercial, nem de coisa nenhuma.
Este Acordo, no presente
descaso linguístico-cultural em que vivemos, principalmente portugueses e
brasileiros, pouco ou nada adiantará na prossecução de tais objectivos,
admitindo que eles sejam mesmo comummente sentidos e desejados.
Tenciono, com brevidade,
voltar ao tema, porque sobre ele muito há, na verdade, para dizer, com respeito
pelas opiniões diversas, mas também sem receio de ferir susceptibilidades
alheias, nem de desagradar a certas autoridades linguísticas, portuguesas ou
brasileiras, reais ou imaginadas, de quem se espera esclarecimento, boa
doutrina e prática coerente, em lugar de exibição de arrogada jurisdição
científica ou administrativa.
A Língua, relembre-se
sempre, não é matéria exclusiva de especialistas, mas tema eminente de
afirmação da cidadania, que a todos convoca a reflectir e a todos directamente
respeita. Dela todos somos devedores, porque nela primeiramente se forjou a
nossa formação cultural. E, analogamente, todos dela nos tornamos legítimos
artífices e, desejavelmente, seus obrigados defensores.
Lisboa, 06 de Abril de 2008

António Blanco
Eng.º Electrotécnico (IST)
- Membro da Ordem dos Engenheiros nº 19905
- Membro da Sociedade da Língua Portuguesa nº 11800
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