Paulo Coelho

O Zahir

Cascais, Ed. Pergaminho, 2005

 

   Na folha de ante - rosto, estão inscritas as seguintes frases:

 

                   «Exemplar especial

                     para críticos e amigos»

 

    Dirige-se, assim, o escritor a um narratário específico: críticos e amigos.

    Na página seguinte, há a seguinte epígrafe:

 

                   «Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós. Ámen.»    

 

   Esta espécie de Avé-Maria inscreve o romance numa súplica de recorrência ao sagrado.

   Vejamos o título: O Zahir. Na badana do livro lê-se o seguinte:

 

   «O Zahir é algo que, uma vez tocado ou visto, nunca é esquecido - e vai ocupando o nosso pensamento até nos levar à loucura. O meu Zahir tem um nome e o seu nome é Esther.»

  

   Temos, logo de início, uma série de informações que nos apontam para o conteúdo da história que, aliás, na mesma badana, é resumido em poucas palavras:

    «O Zahir conta a história de um escritor de sucesso, com uma vida confortável e um casamento estável; um homem satisfeito. Até que, sem qualquer motivo ou explicação, Esther, a sua mulher, desaparece. Este acontecimento inexplicável leva-o a repensar toda a sua vida. Pouco a pouco, a sua necessidade de compreender o sucedido torna-se uma obsessão. Uma obsessão que o leva a partir numa viagem para se reencontrar com Esther e consigo próprio.»

   Fica, deste modo, o leitor prevenido do tema do livro e de algumas das suas acções -chave para o desenvolvimento da acção.

   Começa o livro em forma de romance policial:

   «Ela, Esther, correspondente de guerra, recém-chegada do Iraque, 30 anos, casada, sem filhos. Ele, um homem não identificado, aproximadamente 23 ou 25 anos, moreno, traços mongóis. Os dois foram vistos pela última vez num café na Rua Faubourg Saint-Honoré.»

      O texto prossegue, explicando que a polícia fora informada que estes dois já se tinham encontrado antes e que Esther estava sempre a comentar que este homem, a quem ela chamava de Michail, era muito importante. Não sabemos se importante pelo cargo que exercia ou simplesmente importante para ela.

   A polícia iniciou investigações, pois, da sua conta bancária, vários saques tinham sido efectuados nas semanas anteriores ao seu desaparecimento. Isso poderia estar ligado ao pagamento de informações, uma vez que ela, devido à sua profissão de jornalista de guerra, estava permanentemente em contacto com células terroristas. E o narrador termina a primeira página, declarando:

   «Ela, Esther, dois prémios internacionais de jornalismo, 30 anos, casada.

   A minha mulher:»

   Trata-se, pois, de um narrador auto-diegético que participa da acção. Ele é também envolvido neste rapto, porque é preso por não querer dizer o que estava a fazer no dia do desaparecimento da mulher. Entretanto, uma amiga da mulher e dele, divorciada, sem compromissos, por sua própria iniciativa, sabendo que ele se encontrava preso sem culpa, vai à polícia e declara que estava com ele a dormir, em sua casa. Ele é libertado de imediato.

   Como já nos apercebemos, a acção passa-se em França. Por isso, o sujeito da acção/narrador pergunta ao polícia se era possível que sua mulher já não estivesse em França ao que ele responde afirmativamente.

   Desta personagem, ficamos a saber que é um escritor famoso e rico, que se sente muito abalado pelo desaparecimento inesperado da mulher que o abandona e que o deixa livre. Ele poderia, no decorrer dos tempos, estar sensível para encontrar outra mulher. Só que a vida e os sentimentos que a manejam não são tão simples. Obsessivamente ele pensa em Esther.

   Depois de ter saído da cadeia, deambula por Paris, até chegar ao Hotel Bristol, onde costumava tomar uma chávena de chocolate com Esther. No terraço do Hotel, pede uma chávena de chocolate e enquanto espera, faz uma retrospectiva da sua vida. Dois casamentos que terminaram em divórcio. Depois, Esther, por quem se apaixonara vivamente.

   Numa técnica daquilo que em cinema se chama «flash back» e em literatura, analepse, recua aos tempos de namoro. Ele ganhava a vida compondo letras para canções e tinha sucesso nisso, mas Esther achava que ele tinha muito mais capacidade para escrever um livro a sério e insistia para que o fizesse, mas ele resistia. Não lhe apetecia, iria sair do seu ritmo, ocupar-se excessivamente com a escrita e isso aborrecia-o, mas Esther não o largava com essa ideia. Até que finalmente ele escreve o seu primeiro livro.

   Esther, sem ele saber, envia-o a um editor amigo e este publica-o. Com grande surpresa sua, o livro foi um êxito. Atrás desse vieram muitos mais e o sucesso retumbante.

   Entretanto passam-se oito anos e a sua vida em comum leva-o a pensar que ela é e será sempre a mulher da sua vida. Uma ocasião, porém, quando saíam do cinema, ela confessa-lhe que queria ser correspondente de guerra e que já tinha feito esse pedido à revista onde trabalhava. Ele pergunta-lhe que necessidade tinha disso, se não era feliz com o seu trabalho. Ela responde-lhe: «Gosto do meu trabalho, mas não sou feliz.»

   Fazem considerações sobre essa tristeza que é comum a quase todas as pessoas. Entretanto, no Médio–Oriente conhecera o seu intérprete e tradutor. Michail era o seu nome. Desde aí não parava de falar deste jovem e de como ele era importante. Pouco tempo depois, Esther desaparece. 

   Das inúmeras conjecturas que ele faz, é evidente que a mais plausível é que ela se tenha tornado amante de Michail e desaparecido com ele.

   Encontrar a mulher constitua agora o seu único objectivo. Entretanto, conclui outro livro. Na sessão de lançamento, o último leitor, que aguardava na fila pela sua dedicatória e assinatura, era precisamente Michail. Reconhecera-o sem nunca o ter visto e sem ele ter tido a necessidade de se apresentar. Este diz-lhe: «Queria ser o último, porque tenho um recado.»

   O escritor não quer perdê-lo. Precisava de conversar com ele, saber onde estava Esther. Ele diz-lhe:

   «Eu queria que soubesse que ela está bem»

   Michail recusa o seu convite para jantar, desculpando-se que terá de participar dali a duas horas de um encontro que se realiza todas as 5as Feiras num restaurante arménio.

   Marie, a última namorada do escritor, que tem consciência exacta de que ele apenas ama a sua mulher e que vive na angústia de a encontrar, quer ajudá-lo. Por isso, convence Michail a ir jantar com eles, prometendo-lhe que depois o levarão ao restaurante arménio. Michail, durante o jantar, conta-lhes que organiza encontros nesse restaurante, onde conta episódios do quotidiano, no palco, deixando que as pessoas, na plateia, narrem também as suas histórias. À pergunta de Marie sobre a terra onde nascera, responde que nascera no Cazaquistão. Depois do jantar, dirigem-se os três ao restaurante arménio.

   Ouvem-se várias narrativas sobre ciúmes, abandono e depressão.

   O objectivo destes encontros parece ser o de entre - ajuda como acontece em relação aos alcoólicos anónimos ou com os conselheiros matrimoniais.

   No final das histórias, umas jovens vestidas de branco executam uma dança, com a sala apenas iluminada por velas.

   Depois desta espécie de ritual, o narrador procura pressionar Michail a falar de Esther. Ele diz-lhe que sua mulher se afastou, porque ele deixou de a entender. Amava-a, mas não a entendia e, por isso, ela partira. E, ao contrário do que ele pensava, Esther não era sua amante, mas apenas uma grande amiga a quem apoiava.

   A partir daqui, este marido abandonado inicia um percurso do conhecimento, numa dimensão mística e esotérica, no qual se levantam questões fundamentais sobre a vida, o amor e o relacionamento com o outro.

   Uma crítica do Jornal de Letras define em poucas palavras a tipologia deste romance:

   «A obra de Paulo Coelho como que inaugura, em língua portuguesa, a corrente espiritualista do romance, corrente que (…), em época de vazio cultural, de imperialismo da técnica e da economia, de decadência de utopias e de mudanças sociais aceleradíssimas, talvez venha a constituir-se como uma forte vertente do romance português e brasileiro do sec. XXI.»

   O escritor decide partir para o Cazaquistão, empreendendo uma viagem iniciática em busca da perfeição e do absoluto, do seu Zahir. Irá acompanhado de Michail que é o seu iniciador, aquele que o guiará e o ajudará a encontrar a sua luz.

   Atravessarão a cavalo a estepe. Michail o conduzirá a Esther que o espera tranquila, fiando o seu tapete, tal como Penélope esperando o seu Ulisses, na certeza de que ele virá um homem novo.

   Este longo livro de 314 páginas, que se pode resumir em poucas frases, traduz, na verdade, uma preocupação do autor, e que é uma constante na sua obra, a de procurar pela via do esoterismo uma espécie de fio de Ariadne, isto é, a luz da sabedoria, ou melhor ainda, a felicidade da existência e a verdade do amor.

   Zahir é um livro interessante que, contendo como ingrediente, o mistério dos grandes segredos, lê-se com a mesma expectativa de um bom livro policial, entrecruzando-se, a partir de certa altura, com uma dimensão mística e iniciática, mantendo a curiosidade do leitor e levando à reflexão sobre a vivência dos sentimentos.

 

                                                                                           Elsa Rodrigues dos Santos