A Poesia Cabo-verdiana pós-independência

 

 

Em 1998, saía um Antologia dos Novíssimos Poetas Cabo-verdianos (recolha, organização, selecção e apresentação de José Luís Hopffer de Almada, intitulada Mirabili s- De Veias ao Sol.

Esta Antologia abria com uma introdução in memoriam aos poetas do passado do sec. XIX e princípios do sec. XX: Nhô Nacho, Eugénio Tavares, Pedro Cardoso e António Pedro. Antologia também in memoriam de Jorge Barbosa, «poeta primeiro do nosso modernismo», Jaime Figueiredo, espectro da cidade e da sua solidão, João de Deus Lopes da Silva, resoluto e ignorado cultor da poesia», Bibinha Cabral, Pedro Corsino de Azevedo e Sérgio Frusoni. Dedica também a todos os da sua geração, os confrades do Movimento Pró Cultura, do Voz di Letra, de Fragmentos, do Aurora, do Sopinha de Alfabeto, do Podogó, das Folhas Verdes, do Alternativa (em Ponto & Vírgula) das Raízes, da Seiva, do Ariope.

Tinha, assim, à partida, o propósito de perpetuar a memória do passado, celebrando a modernidade.

Arménio Vieira abre a Antologia com um belo poema, «Ser Poeta», apadrinhando a elaboração desta Antologia, com cerca de 56 poetas a atestar não só a qualidade, como ainda a vasta produção poética nessas terras de Cabo Verde.

Aparecem poetas já conhecidos, a maior parte deles com livros publicados, outros só com participação em revistas locais, como Cabral, pseudónimo literário de José Cabral, natural da Ilha do Sal (Espargos) e que figura nas revistas Aulil (dos poetas da ilha do Sal), Voz di Povo e Ponto & Vírgula.

No longo poema intitulado «Um poema para o ano dez», Cabral ergue um hino à confiança no futuro, na determinação da mudança. Mas é igualmente uma denúncia de todos os males e do atraso que, em 85, ainda se encontrava a sua ilha. Os outros dois poemas e do atraso que, em 85, ainda se encontrava a sua ilha. Os outros dois poemas «Povoamento privado» e «Cumprimento» constituem um incentivo ao povo da sua terra a ultrapassarem com optimismo as dificuldades (que são, porém, enunciadas)

 

«Homem.

Meu irmão,

Levanta-te e vem, seguro e firme

Pois razão não há para que sintas tanto pessimismo, tanta descrença!

Não estamos cá?

 

Então

Por que esperas?

Não tenhas medo!

Vem,

Confiante,

E ampara-te em mim nós

Que o meu nosso

Medo

Inquebrantável, inabalável

Força te dará

 

1985

 

 

Camilo Graça, que fez vários percursos. Nasceu em Dakar, veio para Cabo Verde onde fez os seus estudos primários. Voltou para Dakar e depois para Lisboa, terminando aí o Liceu. Passou por Genebra e Paris. Entretanto, foi para o Brasil, onde estudou sociologia. Hoje é antropólogo e Mestre em Estudos Africanos. Vários artigos e ensaios dentro deste âmbito. Escreve poemas em português e em francês (sua segunda língua) e um deles, um dos mais bonitos é «L’éxil, ma douleur», onde canta a dor e a saudade no exílio. Deste modo, no poema escrito em português, «Regresso», o poeta recorda a sua terra como único lugar possível para si de contar com os amigos.

 

Lamento!

Já fechei a porta.

A casa é grande bem o sei

mas a porta

a não abro a mais ninguém.

Antes

Mil e um amigos

tive.

Hoje

Só um sobrou.

 

Ao espelho

Vejo

A tua nova imagem

Ó minha terra.

 

Setembro, 1986

 

 

Canabrava (pseudónimo de Pedro Alberto Andrade Vieira) é membro do Movimento Pró Cultura. Figura na Antologia Aulil. Escreve em português e em crioulo. Sente-se nele uma grande influência de Corsino Fortes.

 

 

Partida & Regresso

 

E quando tuas veias

Forem sangue-do-sangue-do-povo-das-ilhas

Banhando de suor & sacrifício

Os oceanos do mapa-mundi

 

E teus olhos cegos de alienação

Forem lâmpadas do progresso

Que se espelham nas ilhas

 

Ainda mar-evasão

Poema dor & nostalgia

É estrada da partida

Dos sonhos sem cor

 

E o regresso

È suor & sacrifício

Sangue + cicatriz

Alento nas veias do progresso!

 

 

Carlos Alberto Barbosa, mais conhecido por Kaká Barbosa, é músico e compositor com vários discos publicados. Os seus poemas são escritos em crioulo.

 

 

David Hopffer de Almada nasceu no sítio de Pombal, no concelho de Santa Catarina (Ilha de Santiago). Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, tem trabalhado como advogado, mas também assumido cargos políticos, como Ministro de Informação, Cultura e Desportos e Deputado à Assembleia Nacional Popular. Foi candidato à Presidência da República de Cabo Verde.

Tem poemas publicados em árias revistas de Cabo Verde. Nesta antologia, o poema «Uma porta nº 26/ Lisboa» da rua da Fábrica da Pólvora em Alcântara conta a história da vida difícil dos emigrantes cabo-verdianos, onde quer que se encontrem seja em situação regular, seja em clandestinidade.

 

«No número vinte e seis

da rua da Fábrica da Pólvora

Mora gente que conheço

Lola, Alfredinho

José da Nha Rosa, Antonino

Ita e outros mais

 

Gente que conheço

Gente que era gente

Gente que veio da sua terra

À terra de gente

Vender a vida

A troco triste

De pobres migalhas

De patacos brancos»

 

 

Dina Salústio nasceu em Santo Antão. Assistente social e produtora de rádio, foi Directora da Rádio Educativa. Tem dois trabalhos publicados no âmbito da Pedagogia, da Psicologia da Criança e das Técnicas de Redacção.

Vários poemas e crónicas estão publicados nas revistas Mudjer, Ponto & Vírgula, Fragmentos, no Suplemento Voz di Letra e no Jornal Tribuna.

As suas obras de ficção publicadas são o que há de melhor na literatura cabo-verdiana actual com A Louca de Serrano e Mornas eram as Noites. Na literatura Infantil, ganhou um 3º Prémio com A Estrelinha Tlim Tlim.

A poesia de Dina Salústio não tem um «leit motiv» no seu todo. É uma poesia que nasce dos seus momentos mais íntimos, dos seus estados de espírito, da reflexão sobre o quotidiano, da violência dos gestos, também o amor, as frustrações dos sentimentos, enfim, a vida e a humanidade. Figura nesta Antologia com oito poemas e, como exemplo, cito «Éramos eu e tu», poema de uma grande sensibilidade e beleza dedicado ao primeiro grito de vida.

 

Éramos eu e tu

Dentro de mim

Centenas de fantasmas compunham o espectáculo

E o medo

Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

 

Mãos agarradas

Pulsos acariciados

Um afago nas faces.

 

Éramos tu e eu

Dentro de nós

Suores inundavam os olhos

Alagavam lençóis

Corriam para o mar.

As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

 

Éramos tu e eu

Dentro de nós.

 

As contracções cada vez mais rápidas

                                 O descontrolo

                                      A emoção

                             A ciência atenta

                                       O oxigénio

                                    A mão amiga

 

                        De repente a grande urgência

                                       A Hora

                                              A Violência

Éramos nós libertando-nos de nós.

 

                                 É nossa a dor.

                                  São nossos o sangue e as águas

                                  O grito é nosso

                                  A vida é tua

                                  O filho é meu.

 

Os lábios esquecem o riso

Os olhos a luz

O corpo a dor.

 

A exaustão total

O correr do pano

O fim do parto.

 

 

Filinto Silva (Filinto Silva) é licenciado em biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Membro fundador do Movimento Pró-Cultura, desempenhou as funções de Coordenador da Comissão de Documentação e investigação Cultural. Revela-se um poeta bastante elaborado, com uma ironia fina e uma linguagem surrealizante. Um nome que já se impôs na literatura e na cultura cabo-verdianas.

  Publicou: Das frutas serenadas, Do lado de cá da rosa, O Inferno do Riso e Das Hespérides

Sobre o livro Das Frutas Serenadas, o ensaísta, Prof. Dinis Macedo, pondo em relevo o seu refinamento estético e estilístico, diz o seguinte: «No livro a linguagem literária dialoga abertamente e soberanamente com a linguagem fotográfica, provocando efeitos cinéticos (e sinergéticos) da mais alta valia»

  

«Acerca do amanhecer

 

amanhece…

o dia não

que já desisti de o querer

alegre, claro e positivo

 

o dia não

que o sol é moeda falsa

no mercado negro dos meus sonhos

 

o dia não

que o meu relógio descontrolou-se

e ficou em cima da meia-noite

 

amanhece

na minha alma debruçada

no abismo dos momentos

 

amanhece

na urgência absoluta

da árvore cujo fruto amadurece…»

 

 

João Rodrigues não é um escritor da nova geração, pois nasceu em 1931. Tem sido, porém, regular colaborador de vários jornais actuais como: O Arquipélago, Diário de Notícias, Voz di Povo, Terra Nova e Tribuna, Presença Cabo-verdiana, Nôs Vida, Morabeza, Raízes, Emigrason e Ponto & Vírgula.

Publicou: Os contos Monte Verde-Cara, O Casamento de Joaquim Dadana (noveleta), Caminhos Agrestes (contos), O Jardim dos Rubros Cardeais e Pérolas do Sertão (Poesia)

Tem, portanto, uma vasta produção, sobretudo na pequena narrativa (novelas e contos). Consta com oito poemas na Antologia Mirabilis de Veias ao Sol.

São poemas, produto de uma pena vigorosa, cujo lirismo é impregnado do simbolismo da terra em simbiose perfeita com Eros. Sensual, erótica, esta poesia é também telúrica, evocadora da terra agreste, nua, vulcânica, pedra que do nada brotou vida.

 

A pedra.

Era pedra

Bruta

Imperfeita

Agreste

Mas sensual nos lábios nos seios

No corpo nu sexualmente exposto

E o sexo era a pedra

-pedra mulher.

A seiva e a vida

Agitaram no ventre

De pedra

Quando

Gestos impúdicos copularam

A pedra

E a seiva consolidou

E entoou o hino da vida

E a vida se agitou no estrume-pólen

E a pedra

Contorceu-se em dores de parto

- pedra-mãe!

 

No final deste longo poema, o poeta interroga:

 

«Volvidos milénios

a génese apodrecida

a pedra soterrada

sopesando esta poesia prostituída

de repente

evocamos o nosso pudor

e escapa-se-nos esta irreverente interrogação:

 

EVA- PEDRA

PEDRA-MÃE

QUE FIZESTE AO PAI ADÃO?

 

João Rodrigues aproxima-se no estilo de Corsino Fortes. Aliás, dedica-lhe o poema «Sinfonia Terra Burcã», imitando-o no estilo e cobiçando-lhe algumas das suas palavras-chave e expressões como: pão e fonema, milho, orvalho & marulho. Não deixa, porém, de ser um poeta original com uma grande força estética.

 

 

Jorge Carlos Fonseca merece-nos também a nossa menção. Nasceu em São Vicente, fez os estudos secundários na cidade da Praia. Estudou Direito em Coimbra, mas, no último ano, foi expulso da Faculdade pela PIDE. Veio a formar-se na Universidade de Lisboa. É Mestre, pela mesma Faculdade.

Após a Independência, exerceu vários cargos no Governo, nomeadamente Secretário Geral do Ministro dos Negócios Estrangeiros

É co-fundador da revista Raízes. Figura na antologia Anti-Floral, da poesia surrealista e concretista. Tem colaboração poética nos jornais Voz di Povo e Pintcha e noutros jornais literários.

A sua poesia é de forte influência concretista, como ainda utiliza uma linguagem e uma filosofia poética surrealizantes, abordando temas como a morte, a noite, o amor, a união dos seres e a solidariedade universal, contra o racismo e toda a espécie de violência.

 

III

« Cada vez

 que te espreito   

                 na paisagem inebriante

                                      de noites

                                            de fantasmas

                                                         deliciosamente adúlteras

 

ternamente

             te acompanho

                    no suplício gostoso

                                 do Carnaval permanente

                                              de nossas vidas orquestradas                              

 

 IV

 

Cada vez

      Que mergulho

                  No sono de luz

                                     Do calor de tuas artérias de fogo

 

Escalo pressuroso

                  O porto grande

                         De nossas viagens prateadas

                                                Sempre sem destino

 

Dakar, 20 de Novembro de 1976

 

 

Valentinous Velhinho de seu nome Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues nasceu em 61, em Calheta de S. Miguel (Ilha de Santiago). Cursou os liceus na cidade da Praia. Vive em São Vicente. Casado com Larissa Rodrigues, Directora do jornal ArtiLetra, é um colaborador assíduo deste jornal. Um dos seus últimos livros Adeus Loucura Adeus é publicado pelas Edições Artiletra, em 97.

Com cerca de 300 poemas, podemos encontrar neles uma inspiração bíblica que não é mais do que o desejo de atingir o mito « que é nada», como diria o nosso Fernando Pessoa, o mito ou a perfeição. Nessa busca confronta-se com a morte ou com a Loucura, não a psíquica, mas aquela de que falava Thomas Morus, a sua moria, a loucura saudável que todos os que escrevem poesia deveriam ter e que por ela deveriam ser respeitados. A morte é um tema constante, quer involuntária, quer voluntária, suicídio ou morte natural como percurso ou viagem do «homo viator» para o Absoluto nesse desejo de conhecer o Ignoto

 

«Ah! A loucura no poeta!

Sentimo-la perto

Perto como um rumor.

Crispamos as mãos

Para senti-La

- e nunca para a tocar.

 

E como se se tratasse

Do mais banal dos gestos À cabeça atiramo-la.»

 

Mas mais do quer conhecer o Ignoto ou o Mistério é a afirmação do Homem sobre a vida e mesmo sobre a morte, como única liberdade, ou como única obsessão.

A poesia de Velhinho Rodrigues é bem construída, numa escrita densa e elaborada, pensada, criando filosofias próprias ou indo ao encontro de Nietzsche ou de Kafka, trazendo para a sua poesia índices da cultura universal, mergulhando na sua própria insularidade, não a insularidade cabo-verdiana como os seus maiores a cantaram, mas uma terrível insularidade petrificada na solidão até aos recessos da Morte.

Velhinho Rodrigues tem ainda a particularidade de se assumir por inteiro como cabo-verdiano no quotidiano, oralmente, comunicando em crioulo num português crioulizado ou num cabo-verdiano aportuguesado. Fá-lo por convicção. Como por convicção e cultura, escreve num português correctíssimo sem desvios, universalizando-se como Poeta, através da palavra e do Verbo.

 

 

Vera Duarte fez os estudos liceais em São Vicente e formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. Entre vários cargos desempenhou as funções de magistrada e Directora-Geral do Gabinete de Estudos e Legislação do Ministério da Justiça. É membro dirigente da Organização das Mulheres de Cabo Verde. Foram-lhe atribuídos vários Prémios Literários.

Consta da antologia «Mirabilis de Veias ao Sol» com dez exercícios poéticos, assim chamados, pois são textos de prosa poética, cujo lirismo se fundamenta num discurso, por vezes, angustiado sobre a vida. 

 

Exercício Poético 2

 

É uma prosa poética de grande densidade conteudística de uma escritora que sabe mover-se na literatura com uma escrita viva e intensa.

 

 

Carlota de Barros nasceu na ilha do Fogo em Cabo Verde, fez os estudos primários em Moçambique e os secundários em Lisboa. É licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Exerceu a sua docência em Cabo Verde, de 1966 a  Lisboa.

Obras: A Ternura da Água (poesia), 2001

A minha Alma corre em Silêncio (poesia), 2003

Sonho Sonhado,2007

 

Carlota de Barros abre o seu primeiro livro, A Ternura da Água com o poema «Mar e Fogo», fundador da sua imagética, como igualmente memória do lugar onde nasceu.

 

«Nasci junto ao mar

(…)

me uni para sempre

à agua

ao sol

à areia

 

nasci entre o fogo

e tempestades salgadas.»

 

A água, o mar marcam-lhe a transparência de vida e transportam para a poesia sinais de uma vivência feliz, na união da família e dos amigos. Transportam-na igualmente para o seu Cabo Verde, sempre presente, berço onde aprendeu a amar, numa morabeza bem peculiar de solidariedade e de ternura. Por isso, o seu «Recado para as Ilhas» (p. 185) é uma mensagem de optimismo, porque a chuva chegou e com ela os campos se cobrirão de verde):

«Chegou a chuva/ o verde/ e a rosa/ os azuis/ os pampilhos/ as harpas / e os alaúdes// há serenatas/ suspensas/ nos sonhos/ de alguém/ sons de violino/ no ar violeta/ trazem de comer7 e comer/ para todos».

Deste modo, a autora recomenda: «a ti se juntem/ os pássaros/ das ilhas/ e digam/ ao povo/ que não sofra/  mais// que dance/ e não chore// e cante agora/ suas mornas/ e coladeiras/ porque as ilhas/ são verdes/ têm florestas/ e flores/ do campo/ pássaros/ que cantam/ à chuva e ao vento»

 

A Ternura da Água é de um lirismo muito pessoalizado no qual a autora se identifica com amor, com alegria, com família, com terra, com povo, com vida.

E no seu livro Sonho Sonhado, ergue o mesmo hino ao sonho, à vida

 

«Amanhece/ não quero ouvir/ o rumor das lágrimas/ a descer os montes/ não quero mágoas.»

 

É com o mesmo sentido de recusa ao sofrimento, que encara a seca:

«Não gostaria de ter visto/ a seca a crescer/ (…) mas vi

esqueletos de goiabeiras/ retorcidos/ de secura/ ocas papaieiras/ vergadas/ sem seiva sem sémen/ mas vi/ não gostaria de ter visto/ os altivos coqueiros de pé/ a morrer sem um gemido/ o esplendor das árvores/ a murchar em silêncio/ não gostaria de ter visto/ mas vi.»

 

Alargando o seu olhar pelo mundo, recusa igualmente a ver guerras e dias de traição.

 

«Vejo grades no sol/ vilmente amordaçado / (…) Vejo longos dias de sangue/ mentira/ vilania/ cobrir a terra de negro terror»

 

Ergue um pensamento ao Iraque no seu poema «Sem piedade»:

 

Os pássaros da morte/ pairam sobre o Iraque/ sem piedade/deixam cair seus excrementos viscosos/ sobre homens e mulheres/ alucinados de desespero/ (…) os pássaros da morte / violam o Iraque/ sem piedade».

 

O sonho sonhado de Carlota de Barros é o regresso à terra de todos os que partiram num abraço único de empenhamento para a reconstrução do país. Traduz, assim, a mesma mensagem de Corsino Fortes quando ele na fala em «Mar & Matrimónio», isto é, o mar serviu para que o emigrante cabo-verdiano saísse da sua terra em busca de melhor vida, sim, mas mais do que isso em busca de conhecimento e de experiência que virão enriquecer e fecundar a terra cabo-verdiana: «que toda a partida é alfabeto que nasce/ todo o regresso é nação que soletra».

 

 

José Luís Hopffer Almada nasceu em Pombal, Freguesia e Concelho de Santa Catarina (Santiago). Fez os estudos primários e secundários em Assomada e os liceais na cidade da Praia. Licenciou-se em Direito, em 1984, pela Universidade Karl Marx de Leipzig (RDA)

Trabalhou na Secretaria-Geral do Governo de Cabo Verde, onde exerceu as funções de Director do Gabinete de Assuntos Jurídicos e de Legislação. Tem um vasto «curriculum» no âmbito da cultura e da literatura como ensaísta, sendo hoje um dos estudiosos com conhecimento mais profundo sobre a literatura do seu país. Várias participações em colóquios, mesas redondas, programas na Rádio em Cabo Verde e em Portugal. Fundou em 85, o Núcleo Pró-Cultura e o Movimento Pró-Cultura, e participa em quase todos os jornais cabo-verdianos. Foi Membro da Comissão Nacional para o Acordo Ortográfico no Rio de Janeiro. Integrou a Comissão Nacional para a Língua Cabo-verdiana.

Obras publicadas: À Sombra do Sol (poesia)

                               Assomada Nocturna (poesia)

Organizou a Antologia Mirabilis – Das Veias Ao Sol.

 

Utiliza os heterónimos poéticos Erasmo Cabral d’Almada, Alma Dofer e Zé di Santy Águ e os pseudónimos Tuna Furtado e Dionísio de Deus y Fonteana

 

À Sombra do Sol, o seu primeiro livro de poemas não é, de modo nenhum, um livro das suas verduras, mas um livro da sua maturidade não só psíquica, como literária. É um livro de uma grande densidade temática, tendo como núcleo fundador a ilha de Santiago, o seu Cabo Verde, mas irradiador de outras temáticas mais abrangentes e universais.

Revela esta obra uma notável segurança, impondo-se por uma escrita em que o poeta maneja à vontade, com força lírica, a língua portuguesa, exprimindo um imaginário com fortes índices de uma cultura universal.

Em primeiro lugar sente-se a influência pessoana, um Álvaro de Campos ou um Alberto Caeiro, igualmente telúrico, confundindo-se a tellus-mater com a mulher amada, fecundando-a através da palavra. Tellus e Eros num encontro perfeito, promotor de um parto donde nasce a obra e a própria vida.

À Sombra do Sol é também uma escrita da memória, de recordações de um percurso de vida, de contactos com outros povos nessa Leipzig distante. O poeta solidariza-se com os camaradas da Nicarágua, juntando as dores cabo-verdianas aos mártires de todo o mundo e escreve poemas in memoriam de Che Guevara e uma ode na morte de Samora Machel.

O seu segundo livro, Assomada Nocturna, é a reafirmação do seu talento como poeta, numa escrita autobiográfica, traçando um percurso desde a sua Vila de Assomada à cidade da Praia, da Praia à Alemanha, à cidade de Leipzig e, de novo, à sua ilha, onde se ergue o Pico de António.

É no tom entre a tragédia e a epopeia que desenha a saga do povo cabo-verdiano, resgatando o passado, a história, preservando um património humano cultural, no binómio entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo, isto é, entre a embriaguez, a festa , a pulsão sexual, a desmesura e, por outro lado, o sonho, o sentido da harmonia e da beleza..

 

« todos nós éramos

doloridas silhuetas

de achadas escalvadas

de colinas escaveiradas

todos nós éramos

alucinações imponentes colinas azuis

biriandas erguidas

sobre a terra mulata e estéril

como memoriais de paciência e perseverança

contra a seca e a miséria

confundindo-se com o perfil das rochas.»

 

José Luís Hopffer Almada manifesta uma grande sabedoria ao compor esta obra poética, bebendo das fontes clássicas e orquestrando o poema com belíssimas imagens, transfiguradoras da realidade social e histórica de Cabo Verde. Mitificando o povo, ora elevado à categoria de herói, ora mostrando-o na sua face de anti-herói, o poeta oferece-nos esta bela peça poética, por vezes, alternando o patético com a contenção, a exuberância da imagem com a sobriedade, mas tendo sempre em atenção a harmonia, a sonoridade, a virtualidade lexical, a força emotiva, dotando a obra de uma qualidade que o coloca ao nível dos grandes poetas de Cabo Verde.

 

 

José Luís Tavares nasceu na localidade piscatória Chão Bom (Tarrafal), onde teve uma infância e adolescência difíceis. Fez os seus estudos primários e preparatórios no Tarrafal e os restantes estudos liceais na Praia , onde os concluiu. É licenciado em Filologia Românica e em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, preparando-se actualmente para o doutoramento. É fundador e director da folha literária Aurora e tem colaboração nas revistas Fragmentos e Seiva e é membro do Movimento Pró -Cultura.

 

Obra publicada: Paraíso apagado por um trovão (poesia)

 

No «Limiar», isto é, no poema de introdução à obra, José Luís Tavares diz-nos:

 

 «Desacontecidos sucessos/ são matéria deste livro, precário/ edifício, como tudo o que é erguido/ pelo cuspo da poesia»

 

O 1º capítulo «onde habita o trovão», inicia-se com um poema dedicado à casa («Ali fora a casa. Lugar das domésticas deflagrações./»

 

Assim, a casa, ou o lugar onde nasceu e viveu a adolescência é o universo central, ponto de partida para a sua poética. É ainda lugar da memória, de evocações várias, de fantasmas esfumando-se na imaginação

.

 «nomeaste a casa

círculo de lava à luz do solstício

cada trave agora em chamas

relembra-te que Sísifo és e nada mais.»

 

Esta referência mitológica remete-nos para a simbologia do castigo eterno, Sisifo rolando um tremendo rochedo desde o alto da montanha, caindo sem cessar, erguendo-se de novo para voltar a cair depois, caracterizando a insaciedade do desejo e a perpetuidade da luta contra a tirania. Assim, o poeta vai exprimir esse irreprimível desejo de respirar a sua terra, de se identificar com ela, recuando aos primórdios, à Mãe de todas as Mães, aos antepassados Avós, exprimindo-se numa poesia, diria, cósmica.

No capítulo «Retratos Cativos» são os das mães que surgem à mente «a sépia desenham-se/ sobre os rios do mundo (…) sobre as colinas da manhã/ são o mais alto nome do amor»

.

Mas divisa-se também o rosto do avô:

 

«Erecto o vejo, criatura temente à sua

ira, ou simples fugitivo da pobreza

erguido sobre os futuros defuntos pés

que mãos pressurosas ataviaram

numa antiga sexta-feira da agonia.»

 

Ergue-se um canto de louvor à mulher cabo-verdiana no seu destino de mãe sofredora, aliviando as dores de todos os filhos. Canto de uma grande finura, canto de uma beleza difícil de definir pela profundidade metafórica, porém, numa linguagem contida mas sábia.

 

«Falo dessa mulher com a luz na boca;

dessa erguendo os cântaros

pelo embrulhado dezembro dos anos.

Vai pela negrura, nos lábios a adivinha

Se leite ou morno vinho

O que levo na cantarilha

 

(…) Com uma candeia e uma vara

acorda a casa para o decreto imprescritível,

caminhando em frente rumo ao círculo

onde os pastos se incendeiam

e estrepitam as manadas em demanda de socorro.

Mas fraca é a arte do escriba

Face à aflição do cordeiro: nem favo ou premissa

Na sarça que rebenta –

A vida é esse incurável murmúrio como a treva

Que regressa ou a mulher que noite dentro

Vai escrevendo com o arbusto da insónia

O incerto tempo do repouso.»

 

E a criança que foi o poeta, brincando ao peão ou à cabra-cega, sob o olhar vigilante da mãe, cresceu e o lugar da infância mudou.

 

«Onde estavas quando Março cerceou

as grades? Era, amiúde, o corpo

eco doutras guerras. E lanças, clarins., granadas.

Além, por entre as Tulhas, o estrume

Do que já foi infância. Choras, e eu

Choro contigo, porque nos terreiros escalavrados

Já não se brinca à apanhada e à cabra

Cega e o pião das nicas há muito

Se aquietou no fundo dos baús;

 

E, olhando para trás, na idade adulta, o poeta interroga-se:

 

´«O que deixaste para trás:

tardes de vigia por entre chibos e corvídeos?

O assobio amigo nas horas da penumbra?

 

E termina o poeta:

 

«Pela sirga da memória, puxo então

os ascendentes para o redil do poema,

e pergunto-lhes: quem escreve, escreve

para a si mesmo se ouvir,

ou para que a tenaz do mundo

lhe não esmague o coração?»

 

José Luís Tavares cumpre-se como poeta de corpo inteiro, enriquecendo as belas letras cabo-verdianas por uma escrita transfigurada e transfiguradora pela riqueza da imagem e a sugestão dos conteúdos que se vão associando a outros conteúdos, tecendo o poema com a virilidade de um poeta feito pela arte e pelo talento.

 

 

António da Névada, licenciado em Engenharia pela Universidade de Coimbra, foi uma verdadeira revelação com o seu livro Esteira Cheia ou Abismo das Coisas.

Com forte influência da poesia de João Vário e encontrando-se nele algumas ressonâncias de Corsino Fortes, António da Névada elabora um discurso poético de uma grande fluidez, não se afastando dos cânones da literatura cabo-verdiana dos seus maiores, mas inovando por uma linguagem depurada, culta, clássica. Ao mesmo tempo, construindo a sua modernidade através de um discurso épico-narrativo, no qual indaga, questiona sobre a condição e existência do homem cabo-verdiano, o que se verifica nos últimos textos que me chegaram às mãos, espécie de ode, de contaminação épica.  

Configura, deste modo, dentro da estrutura do poema uma similitude com as grandes odes clássicas, pindáricas ou horacianas, odes que, em princípio, eram destinadas a ser cantadas e que evoluíram no sentido de se debruçarem sobre um assunto elevado, escritas num estilo condigno.

António da Névada elege como tema Cabo Verde, tendo como herói o povo na sua labuta diária, enfrentando com estoicismo os adamastores com que se confronta.

Recupera a ode originária ao imprimir, na estrutura do poema, a divisão em cantos, dando-lhe laivos de epicidade, e introduzindo o elemento musical com um Prelúdio a que se seguem três canções, culminando com um Coro ou uma Rapsódia Final.

E se Esteira Cheia ou Abismo das Coisas é um belo livro para se ler e reflectir estas belas páginas que o autor me enviou recentemente possuem uma plasticidade e virtualidades cénicas capazes de serem dramatizadas, o que daria um notável espectáculo teatral.

 

 

Danny Spínola Quando há anos apresentei o seu livro de ficção Lágrimas de Bronze eu terminava, dizendo: «Sendo um escritor cabo-verdiano, renova os cânones da literatura, à semelhança de Didial (João Vário) ou de Arménio Vieira, universalizando-se através de uma escrita que se dirige a um património universal: o Homem e o seu Eu.»

Direi o mesmo da sua poesia, quer em Infinito Delírio, quer em Vagens de Sol.

Infinito Delírio é uma busca incessante do seu Eu nos resquícios da memória, na infinitude dos pensamentos, dos sentimentos, da sua libido, da sua sexualidade, sempre Eros sobrepondo-se à própria razão e o poeta exclama:

 

«Procuro.

Sim, procuro algo

Que em mim existe e não encontro.

 

Sei que não será para dentro de mim

Que deverei olhar para encontrá-lo,

 apesar de se encontrar bem dentro de mim»

 

E continua, desenvolvendo o seu longo poema, num discurso febril, escrito em terras frígidas, em qualquer ponto da Europa setentrional, estigmatizando-o a ele, homem dos trópicos, do sol e do sal, até às profundezas do ser, diria mesmo, até às vizinhanças da loucura e do delírio.

 «Em tal desígnio, já o disse- a própria alma é o

mundo

e a eternidade o seu corpo inteiro

porque a vida é um pássaro cuja alma é minha

quando a luz me inunda por dentro e transborda-se a

si mesma

 

(…)

E agora sim, desse algo que procuro, sei bem:

Nada mais é do que o bater do meu coração

 Na corola esférica e lúcida do meu umbigo

Por sobre a minha ilha

(A luz expande-se sobre o mundo,

sobrevoando neves e nuvens ,

e estende-me uma ponte

que vai de mim à minha ilha

no dorso de um arco-íris alado)

Por isso, o poeta fará a solene afirmação:

 

«ainda que a pedra seja canção e

espírito

e me fale de nebulosas e de elixires mágicos

inestimáveis

e me ilumine por dentro e por fora de sabedoria e

clarividência

Ainda assim

Não renunciaria nunca

À voz silenciosa e queda,

Plena de salitre e poesia,

Da minha ilha loira e inerte

 

Perguntem à saudade

Pelas lágrimas e pelos sonhos

Que destilei longe destas algas,

Destas águas que me inventaram

 

E direi Ulisses dizendo:

«Mais vale ser escravo nestas ilhas de sol

do que rei nas terras da Frígia».

 

Vagens de Sol confirma a maturidade poética verificada no livro anterior, na busca do seu eu, que se traduz afinal, na procura da paz, do prazer, como plenitude, fruto de uma vivência inquieta, em permanente estado de alerta e de indagação.

 

Para terminar direi que esta novíssima poesia em nada desmerece os grandes poetas cabo-verdianos do passado, fazendo jus aos poetas presentes de referência, Corsino Fortes, Osvaldo Osório, Arménio Vieira e João Vário (recentemente falecido).

 

 

 

                                                                                                                                              Elsa Rodrigues dos Santos