Pronomes de tratamento
Teresa - Então hoje de que vamos falar?
Elsa - Dos pronomes de tratamento
Teresa - E o que são os pronomes de tratamento?
Elsa - Denominam-se pronomes de tratamento certas palavras e locuções que valem por verdadeiros pronomes pessoais como: você, o senhor, Vossa Excelência.
Embora designem a pessoa a quem se fala, isto é, a 2ª pessoa, esses pronomes levam o verbo para a 3ª pessoa.
Ex: - Onde é que vocês vão? (3º Pessoa)
-Vossa Reverendíssima saberá como deve proceder
- Vossa Senhoria, Senhor Comendador, terá de perdoar.
Teresa - Mas há ainda além de Vossa Reverendíssima, Vossa Senhoria, Vossa Excelência, enfim, mais formas de tratamento reverente, não é verdade?
Elsa - Convém, na verdade, conhecer as seguintes formas de tratamento reverente e as abreviaturas com que são indicadas na escrita.
Tratamento Usado para Abreviaturas
Vossa Alteza Príncipes, arquiduques e duques V.A.
Vossa Majestade Reis e imperadores V.M.
Vossa Eminência Cardeais V. Emª
Vossa Excelência No Brasil: altas autoridades do governo e oficiais
Generais das Forças Armadas;
Em Portugal: qualquer pessoa a quem, em princípio se quer manifestar grande respeito (principalmente numa carta, num ofício)
Vossa Magnificência Reitores das Universidades V. Magª
Vossa Excelência Reverendíssima Bispos e Arcebispos V. Exª Rev.ma
Vossa Paternidade Abades, Superiores de Convento V. P.
Vossa Reverência ou Vossa Reverendíssima Sacerdotes em geral V. Revª
Ou V. Rev.ma
Vossa Santidade Papa V. S.
Vossa Senhoria Funcionários públicos graduados, oficiais até coronel, na linguagem escrita do Brasil, e na popular de Portugal, a
pessoas de cerimónia. V.Sª
Observações:
As formas de tratamento cerimonioso usam-se muito menos no Brasil do que em Portugal.
Vossa Excelência - (V. Exª) - Embora o seu emprego, no português europeu, se tenha restringido bastante nas últimas décadas, e em particular nos últimos anos, ainda se usa a forma Vossa Excelência, na linguagem oral, em determinados ambientes (por ex. Academias, Corpo Diplomático ou situações (empregado de comércio dirigindo.-se a cliente, mas hoje cada vez menos) sem que haja qualquer discriminação nítida quanto à categoria da pessoa interpelada. Por vezes, aparece reduzida à forma coloquial- Vossência.
Na linguagem escrita, como já dissemos, é largo o seu uso, principalmente na correspondência oficial e comercial
No Brasil só se emprega para o Presidente da República, ministros, governadores dos Estados, Senadores, deputados e oficiais generais. Em requerimentos, petições, o seu uso costuma-se estender a Presidentes de Instituições, directores de serviço e altas autoridades em geral.
Teresa - E Vossa Senhoria.?
Elsa - É um tratamento praticamente inexistente na língua falada de Portugal e do Brasil
As outras formas - Vossa Eminência, Vossa Magnificência, podem ser, por vezes, substituídas por o Senhor. Se for um Padre em de Vossa Reverência dizemos «o Senhor Padre».
Pronomes de tratamento
Teresa - Ainda vai continuar hoje com as formas de tratamento?
Elsa - Sim, hoje falarei dos pronomes de tratamento da 2ª pessoa - Tu e Você.
Vamos ao tu:
No português europeu normal, o pronome tu é empregado como forma própria de intimidade
Usa-se de pais para filhos, de avós ou tios entre o marido e mulher, entre colegas de faixa etária igual ou próxima.
O seu emprego tem-se alargado, nos últimos tempos, entre colegas de estudo ou da mesma profissão, entre membros de um partido político e até, em certas famílias, de filhos para pais.
No português do Brasil, o uso de tu restringe-se ao extremo Sul do País e a alguns pontos da região Norte. Em quase todo o território brasileiro, o tu foi substituído por você como forma de intimidade.
Teresa - Mas no Brasil «você» também se emprega fora do campo da intimidade, não lhe parece?
Elsa - Exactamente. Emprega-se como tratamento de igual para igual ou de superior para inferior (em idade, em classe social e em hierarquia)
Teresa - E em Portugal?
Elsa - No português normal europeu só se usa praticamente nesta última situação, isto é, de igual para igual ou de superior para inferior (em idade, em classe social e em hierarquia).
Em Portugal e só em certas camadas sociais mais altas aparece como forma carinhosa.
O Senhor…O Doutor…
Teresa - Hoje ainda há mais coisas a acrescentar ao que foi dito nas sessões anteriores sobre as formas de tratamento?
Elsa - Ainda há outras formas de tratamento: O senhor, a senhora, a senhorita (no Brasil), a menina (em Portugal) que são formas de respeito ou de cortesia e, como tais, se opõem a tu e você, em Portugal, e a você no Brasil.
Em Portugal, quando uma pessoa se dirige a alguém que possui título profissional ou exerce determinado cargo, costuma fazer acompanhar as formas «senhor» e «senhora» da menção do respectivo cargo ou título.
Ex: Senhor Doutor, Senhor Engenheiro, Senhor Ministro, Senhor Professor, etc.
Quando há já uma certa amizade e conhecimento, usa-se o título não precedido de senhor, senhora, o que é considerado menos respeitoso.
Ex: O doutor, o Engenheiro
Neste caso, é usual acrescentar-se o nome da pessoa a quem nos referimos.
Ex: O doutor José, o Engenheiro Sebastião da Mata
No Brasil, as formas de tratamento antecedidas por senhor ou senhora não se usam geralmente.
Teresa - E o Dom e Dona?
Elsa - Se o título Dom tem emprego muito restrito (apenas para os membros da família real, para os nobres, para os monges beneditinos e para os dignatários da Igreja, a partir dos bispos) o feminino Dona (também abreviado D.) aplica-se, em princípio, a senhoras de qualquer classe social.
Teresa - E Doutor? Em Portugal não são só os médicos que são tratados por doutor…
Elsa - De uso bastante generalizado em Portugal e no Brasil, este título recebem-no os médicos, os advogados, enfim, todos os que defenderam teses de doutoramento, mas, indiscriminadamente, todos os diplomados e licenciados por escolas superiores.
Teresa - No Brasil, até o tratamento de doutor torna-se, por vezes, abusivo porque nem sempre é dado só a licenciados
Elsa - Exactamente, porque muitas vezes se trata por doutor a um indivíduo com um certo estatuto social, independentemente de ele ter curso ou não, mas isso acontece mais vindo de alguém de uma camada social mais baixa, numa atitude de servilismo para com o outro que desfruta de uma posição social elevada, graças ao seu dinheiro
Teresa - E em relação ao tratamento de Professor, não há também aqui algumas diferenciações, pelo menos em Portugal
Elsa - Também o tratamento de Professor é muito frequente tanto em Portugal como no Brasil.
Mas, enquanto no Brasil se aplica ao docente de qualquer ensino, em Portugal usa-se, sobretudo, para os docentes do ensino primário e do ensino superior, doutorados.
Teresa - Na verdade, somos um povo muito formal.
Elsa - É verdade, aqui os estrangeiros perdem-se totalmente nesta questão dos tratamentos - Um romeno meu conhecido que é operário e que já tem trabalhado para mim, quando se me dirige e quer fazê-lo muito respeitosamente, diz-me - Dona Senhora Doutora.!
Pronomes de tratamento (continuação)
Teresa - E hoje, Dra. Elsa. Ainda vamos continuar com as formas de tratamento?
Elsa - Hoje terminaremos com este assunto, mas ainda há algumas coisas para dizer, num contexto sintáctico.
As formas «você», «o senhor», «a senhora» empregam-se normalmente nas funções de sujeito, de agente da passiva e de adjunto
- Você amanhã não vá à feira (sujeito)
- Este homem foi muito maltratado pelo senhor (complemento agente da passiva).
As formas você (no Brasil) e o senhor, a senhora (tanto em Portugal como no Brasil) têm uma função sintáctica de complemento directo ou indirecto, substituindo com frequência os correspondentes pronomes pessoais átonos, o, a, os, as, lhe, lhes.
Ex: Há uma hora estou esperando você sozinha neste escritório.
Devo este favor a você e ao Rodrigo (Complemento Indirecto)
Eu aprecio muito o senhor e era incapaz de ofendê-lo (complemento directo)
Na frase anterior poderíamos substituir o «você» por «lhe» e «você e ao Rodrigo» por «lhes».
Teresa - Mas, às vezes, trata-se a pessoa pelo seu nome próprio.
Elsa - Exactamente, o mais usual é tratar-se o outro pelo seu nome de baptismo ou de família.
Ex: O António já leu o jornal.
O Barradas vai continuar a dar-nos aulas.
Trata-se também uma pessoa pelo seu parentesco ou equivalente. (Pai, mãe, avó, tio ou tia)
Ex: O pai já leu este livro?
A mãe já chegou?
Por vezes trata-se uma pessoa por um nome que revela a relação que se tem com ela, isto é, uma maior proximidade ou distanciamento
Ex: O meu amigo quer vir jantar connosco amanhã?
O patrão volta ainda hoje ao serviço?
O cavalheiro não se importa de fechar a janela?
Teresa - Ainda há mais alguma coisa?
Elsa - Para terminar, gostaria de me referir à fórmula de representação da 1ª pessoa do plural. É vulgar, na linguagem corrente empregar-se «a gente» em vez de «nós». Mas, atenção, nesse caso o verbo vai para a 3ª pessoa do singular.
Ex: A gente vai hoje ao cinema
Elsa Rodrigues dos Santos