Sérgio Ferreira

A Donatária

 

            Sérgio Ferreira de nacionalidade portuguesa, nasceu em 1946 na cidade do Mindelo, ilha de S. Vicente e é filho dos conhecidos escritores Manuel Ferreira e Orlanda Amarílis.

            Refractário à guerra colonial em África, viveu exilado em Londres durante seis anos onde se licenciou em cinema pela London Film School (cinema e televisão) e cursou a Contemporary Film Makers Studio.

            Com seus pais viveu seis anos na Índia e dois em África.

            Fez o curso de Cenografia em Lisboa da Escola Superior de Teatro e de Cinema e frequentou o Curso de Formação de Actores no Conservatório Nacional de Lisboa.

            Realizador, produtor e argumentista de vários filmes sobre personalidades da cultura portuguesa, de médias e longas metragens para a RTP, nomeadamente sobre a vida de Fernando Namora, Leal da Câmara, Pomar, Armando Jorge, Jorge Peixinho, António Casimiro e José Cardoso Pires. Realizou igualmente uma série de seis programas sobre a evolução da música africana.

            Organizou e dirigiu seminários de Cenografia na Escola Superior de Teatro e de cinema.

            Foi Produtor Executivo das Edições ALAC e da revista África – Literatura, Arte e Cultura, coordenada por seu pai, Manuel Ferreira.

 

            Sérgio Ferreira que se tem dedicado ao cinema, dirigindo guiões, sendo argumentista, realizador e produtor, publica agora o seu primeiro romance que é o produto de uma investigação cuidada de vários anos.

            Trata-se da história de Francisca de Santa Maria do Pragal que contracena com outras figuras, como D. Gonçalo de Ataíde, Capitão-mor de Santiago, a quem fora prometida em casamento por seu pai, D. Rodrigo.

            A acção deste romance passa-se entre os anos de 1578-1583 e localiza-se quer em Portugal, no Pragal, a Sul do Tejo, quer na cidade da Ribeira Grande, na ilha de Santiago de Cabo Verde, onde se concentra essencialmente o núcleo actancial, quer ainda, de passagem, em África, na Guiné Alta, numa região entre o Rio Senegal e o Cabo das Palmas.

            Deste modo, assume-se esta obra como romance histórico, que vem na tradição em Cabo Verde de José Evaristo de Almeida, o primeiro romancista cabo-verdiano, que no séc. XIX, em 1856, publica a 1ª. ed. de  O Escravo, tendo sido a 2ª. ed. publicada por Manuel Ferreira, em 1988.

            Ou ainda vem na tradição de António Arteaga, com o seu romance Amores de uma Crioula, publicado em Cabo Verde em 1911.

            A acção destas duas obras situa-se na Ilha de Santiago, constituindo, na panorâmica da literatura cabo-verdiana, as duas únicas obras de ficção situadas na Ilha de Santiago, juntando-se agora esta obra de Sérgio Ferreira, vindo enriquecer o património literário de Cabo Verde, sobretudo da Ilha de Santiago.

            E se na primeira obra referida, O Escravo, a temática é a escravaria com todos os seus dramas, mas cuja personagem principal é uma mulher citada, Maria, que se apaixona por um escravo negro, na segunda obra citada, Os Amores de uma Crioula, a acção situa-se entre a aristocracia cabo-verdiana, fustigada pelos ataques dos corsários, tendo como figura principal uma jovem e linda crioula.

 

            No romance de Sérgio Ferreira, o carácter femininista, no sentido da valorização da mulher, é evidenciado, tal como nas obras anteriores, e perpassam igualmente, no seu universo, cenas relacionadas quer com a escravidão, quer com a pirataria.

            Aliás, esta prática do romance histórico, modernamente, vem-se acentuando não só na literatura portuguesa, com Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lobo Antunes, Luís Rosa, Miguel Sousa Tavares, Mário Cláudio, Mário de Carvalho e, recentemente com Vasco Resende, e nele com a mesma característica do realce da mulher como heroína, como ainda em Angola, com Pepetela e no Brasil, com uma série de escritores.

            É uma viagem ao passado, à descoberta das raízes, procurando colmatar lacunas da própria história.

            Historicamente, os acontecimentos d’A Donatária decorrem entre 1578, ano da morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir em Marrocos e 1580 – com a passagem do domínio de Portugal para Filipe de Espanha, após a morte do rei Cardeal D. Henrique que nos deixou descendência até 1583, final da acção.

            Em 1578, D. Gonçalo, Capitão-mor da Ilha de Santiago, chegava à Guiné Alta, entre o Rio Senegal e o Cabo das Palmas, numa nau com a bandeira da coroa de Portugal.

            Vinha na mira de fortuna para explorar o ouro, o marfim, as pedras preciosas e os escravos.

            À sua espera encontrava-se o Chefe Negro com muitos homens da sua etnia. Mais afastado estava um grupo de negros jagas, isto é, duma etnia diferente. Os portugueses trazem tecidos e fazendas, sal, colares de vidrilho, espelhos e vários utensílios de cozinha e de corte. Entretanto, D. Gonçalo guardava na algibeira um punhado de diamantes que lhe dava em troca o Chefe Negro.

            Esperava-o igualmente um grupo de prisioneiros negros que iriam ser traficados como escravos.

            Para além desta traficância de escravos e pedras preciosas, um acontecimento definirá o carácter deste homem.

            Um dos homens brancos de D. Gonçalo resolve abandonar a nau para se juntar ao grupo dos jagas e aí ficar com eles a viver, transformando-se num “lançado”. Os jagas recebem-no com cânticos e danças.

            D. Gonçalo irrita-se, sobretudo com um dos negros que cantava mais alto, como a desafiá-lo. A sua reacção foi matá-lo a tiro sem qualquer problema de consciência.

            Este incidente revela logo de início a sua maldade e frieza que marcarão todos os seus actos.

            Deste modo, quando monsenhor D. Rosário apresenta a D. Rodrigo, fidalgo sério e de bons costumes, que vive em Portugal no Pragal, a proposta de casamento de sua filha Francisca com D. Gonçalo, sobrinho do Bispo de Cabo Verde, o leitor fica imediatamente de sobreaviso.

            Monsenhor informa-lhe ainda que, com este casamento, sua filha passará a ser “donatária” da Ilha de Santiago e os seus descendentes obterão também esse direito.

            O clérigo informa da situação política, devido à crise de descendência, defendendo a passagem da coroa para as mãos de Filipe de Espanha, perante o espanto escandalizado de D. Rodrigo.

            Esta passagem prova como o clero português estava ao lado da nobreza espanhola, traindo valores de identidade e de nacionalidade.

            Dois anos depois, D. Rodrigo morre com um ataque de coração, indignado quando toma conhecimento que D. Gonçalo tomara o cargo de Governador, por nomeação de Filipe de Espanha, usurpando o cargo ao seu grande amigo, D. Emanuel que tinha sido nomeado ainda em vida pelo Rei Cardeal D. Henrique.

 

            A partir daqui desenha-se todo o conflito, sobretudo depois do casamento de D. Francisca com D. Gonçalo numa capela no Pragal, onde, durante a cerimónia, são presos D. Emanuel e D. Diogo, seu amigo, pelos soldados espanhóis.

            Após o casamento, D. Francisca parte com o marido e com a irmã, D. Joana, numa nau para Cabo Verde.

            A acção vai desenvolver-se através duma técnica cinematográfica, com planos de recuo e de avanço, de múltiplas situações que criam no leitor a expectativa, a curiosidade, o interesse de um filme de aventuras, de capa e espada.

            D. Emanuel e D. Diogo são presos e deportados numa nau para Cabo Verde, reduzidos à servidão, obrigados aos trabalhos mais duros no barco. São salvos por um ataque de corsários à nau, no meio do oceano, que assaltam o barco, roubando, saqueando e prendendo o comandante e a tripulação, mas libertando os prisioneiros e dando o comando a D. Emanuel e a D. Diogo, Entretanto, em Santiago, D. Francisca, em pouco tempo, perderá todas as ilusões sobre o casamento, porque descobre que o marido tem uma amante e que é um homem cruel.

            O final do romance é o ajuste de contas. D. Emanuel junta as suas tropas às de D. Prior do Crato, atacando o forte de Santiago e o palácio, derrubando o poder de D. Gonçalo.

            D. Francisca terá também a oportunidade de se vingar da deslealdade e traição do marido e da morte do pai, de uma forma original e surpreendente.

            O romance tem um final feliz, nas várias soluções amorosas que se apresentam,  após o desenrolar de vários acontecimentos que são descritos até ao pormenor e que nos dão o conhecimento histórico da corrupção e dos negócios ilícitos da classe dirigente, dos costumes do povo e da sua situação de miséria.

            Sérgio Ferreira caracteriza os espaços e as personagens com mestria, visualizando-os, captando com todo o realismo os gestos, os pensamentos, o vestuário, a decoração das salas, as cores, as paisagens, o universo de um passado histórico que pretende recriar e fixar.

            Sérgio Ferreira, seguindo as pisadas de seus pais, os escritores, Manuel Ferreira e Orlanda Amarilis, dá com este romance um precioso contributo à ficção romanesca cabo-verdiana, prestigiando as letras de ambos os países – Portugal e Cabo Verde.

 

                                                                                               Elsa Rodrigues dos santos