Simpósio sobre o 1º Centenário do Nascimento

Da Geração do Movimento Claridoso

 

 

Praia, Santiago de Cabo Verde, 27/28/29 de Abril de 2007

 

 

 Aproveitando o 1º Centenário do Nascimento de Baltasar Lopes e de Manuel Lopes, Cabo Verde celebrou os Claridosos e a Revista Claridade com um Colóquio, primeiro na Ilha de São Nicolau, terra dos dois escritores, e depois, com este Simpósio na cidade da Praia. Irá seguir-se outro Colóquio, no mês de Outubro, em São Vicente, na cidade do Mindelo, onde nasceu a revista e os seus fundadores viveram durante parte da sua vida, como ainda na Ilha do Sal e em Santo Antão.

   Vinte e um anos depois de se ter comemorado o Cinquentenário da Claridade, em São Vicente, em 1986, e do qual participei, foi-me grato reencontrar muitas pessoas que conhecera naquela ocasião, inclusive o actual Ministro da Cultura, Dr. Manuel Monteiro Veiga, na altura um brilhante investigador e ele também entusiasta estudioso de Jorge Barbosa. Mas ainda escritores como Arnaldo França, Mário Fonseca, Oswaldo Osório, e Corsino Fortes, em todo o seu esplendor intelectual.

   Recordámos com saudade Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Gabriel Mariano, Manuel Ferreira, António Aurélio Gonçalves, Teixeira de Sousa, Francisco Lopes da Silva, Mesquitela Lima que nos deixaram nestas últimas décadas.

   Foi-me grato também constatar que o mesmo espírito de respeito e de admiração por aqueles que fundaram uma revista que iria virar uma página na História Literária de Cabo Verde persiste ainda hoje, quiçá com mais entusiasmo e consciência da sua importância.

   Assim o fizeram crer todas as comunicações proferidas e intervenções nos debates bem como os discursos iniciais do Ministro da Cultura, Dr. Manuel Veiga, que evocou com muito afecto a memória dos fundadores da Claridade, realçando a sua importância no panorama literário do arquipélago, despertando a consciência cultural e social para muitos dos seus problemas internos e na configuração de uma identidade nacional.

   Igualmente, na mesma linha e com o brilhantismo que o caracteriza, o discurso do poeta Dr. Corsino Fortes, Presidente da Associação Cabo-Verdiana de Escritores. E, finalmente, a eloquente dissertação do Presidente da República, Dr. Pedro Pires.

   Mas não menos importante, no âmbito dos discursos oficiais, foi a longa exposição do Primeiro - Ministro, Dr. José Maria das Neves, ao encerrar o Simpósio, recordando os vários momentos da Revista Claridade, como realçando o legado destes escritores às gerações vindouras, transformando as consciências e tornando mais forte a sua identidade. Citamos algumas das suas afirmações:

   «Fincar os pés na terra mais do que um projecto foi um grito de liberdade, situando-se numa afirmação de resistência.

     Os homens da Claridade souberam dar voz aos pobres e silenciados, souberam trazer em si mesmo o gérmen da resistência.

    Na verdade, deles somos herdeiros com muito orgulho. Queremos merecê-los e projectá-los. O nosso propósito não é de saudosismo, mas de um diálogo criativo com o legado dos nossos antepassados, porque a História de um país é o fruto de um intenso diálogo entre gerações.»

 

As Comunicações do Simpósio

 

   No painel introdutório, o Dr. Luís Silva, vindo de França, e representando a comunidade dos emigrantes cabo-verdianos, falou sobre o papel cultural da emigração no exterior, começando por dizer: «O cabo-verdiano não emigra apenas por razões económicas, mas também para se valorizar, alargando os seus conhecimentos.» E lembrou que Baltasar Lopes entendia uma emigração como um projecto cultural, desenvolvendo não só os meios materiais, mas também os valores culturais através de associações, da música, das artes plásticas, de colóquios, etc.

   Deste modo, a emigração não pode estar dissociada da cultura, pois há um grande contributo que os emigrantes cabo-verdianos podem dar no estrangeiro em prol do seu país. Para isso, são necessários incentivos e apoios.

   O Dr. Pires Laranjeira, Professor da Universidade de Coimbra, tratou do tema «O stock negro na Claridade», procurando mostrar que «a questão negra» teve um tratamento contínuo, ao contrário do que, por vezes, se pode pensar, o que leva à conclusão de que não foi uma questão apenas episódica e insignificante e que pressupôs uma vontade deliberada e consciente de equacionar o problema ou, pelo menos, de não o recalcar. E afirmou que o negro teve expressão em todos os números da Claridade, nomeadamente no levantamento etnográfico de Félix Monteiro, nos artigos sobre o crioulo de Baltasar Lopes, nos poemas de Corsino de Azevedo e, mais tarde, de Aguinaldo Fonseca, e em artigos de Teixeira de Sousa. Termina perguntando se seria Cabo Verde, na verdade, um exemplo de não racismo ou apenas um paraíso artificial.

   Seguiu-se neste painel a intervenção do Dr. Gabriel Fernandes, sociólogo, que tratou da «Claridade e Cabo-verdianidade», defendendo a tese de que o processo literário claridoso foi um projecto inserido nos contornos políticos da época, pois a cabo-verdianidade da Claridade constituiu um processo interior contra o sistema e erigido com objectivos que anteciparam o movimento emancipador.

   «Os claridosos, afastando-se do confronto político, no entanto, elegeram a cultura como factor de diferenciação e empreenderam uma luta tanto interna, como externa, particularmente em todo o ultramar. Ajudaram, assim, a considerar Cabo Verde como nação pensável e realizável.»

 

   O segundo painel foi dedicado a Baltasar Lopes, no qual falaram o escritor António da Névada e o historiador Daniel Pereira.

   António da Névada (pseudónimo literário de António Brito das Neves) fez uma leitura de Os Trabalhos e os Dias de Baltasar Lopes, realçando os aspectos clássicos do conto, como traduz o próprio título igual à obra de Hesíodo, onde em ambas obras se focam os problemas sociais quotidianos.

   Daniel Pereira, numa comunicação intitulada «Aventura e Rotina e Baltasar Lopes ou a adiada identificação africana de Cabo Verde» traz-nos a velha questão despoletada pelo livro Aventura e Rotina de Gilberto Freyre, que depois conduziu à análise crítica de Baltasar Lopes em Cabo Verde visto por Gilberto Freyre.

   Gilberto Freyre, por volta de 51, empreendeu uma viagem a Cabo Verde, a convite do governo português. Em 53, publica o referido livro, cujo subtítulo é «Sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e acção»

   As observações sobre Cabo Verde suscitaram as mais contundentes críticas dos cabo-verdianos pela voz de Baltasar Lopes, sobretudo acerca do processo de miscigenação, levando-o a afirmar a célebre frase: «Os cabo-verdianos não são nem africanos nem europeus. São cabo-verdianos.»

   Esta afirmação, comentou o Dr. Daniel Pereira, constitui, afinal, uma tese isolacionista, afastando Cabo Verde das culturas, quer europeias, quer africanas. Depois de ter analisado as conclusões de Gilberto Freyre, como igualmente a reacção de Baltasar Lopes, considerando o contexto em que a frase foi proferida, os seus efeitos e resultados em Cabo Verde, ao longo destas últimas seis décadas, concluiu que é necessário assumir a história, devendo o cabo-verdiano ter orgulho, quer dos genes europeus, quer dos genes africanos, mas deve igualmente compreender que o Cabo Verde de hoje só tem «jus» se estiver integrado no quadro africano.

   Seguiu-se o painel dedicado a Jorge Barbosa.

   A primeira comunicação coube a Elsa Rodrigues dos Santos, que tratou do tema «A Consciência Social e Política de Jorge Barbosa», a partir da obra poética, quer nos três livros publicados em vida, quer nos na restante obra publicada postumamente.

   E se na obra publicada em vida, Jorge Barbosa já denunciara os males que consumiam a sua terra, é nos quatro livros conservados inéditos («Expectativa», «Romanceiro dos Pescadores», «Outros Poemas e «Poemas Dispersos») que dá expressão a toda a sua consciência social e política. São livros do amadurecimento ideológico, em que o autor parte do tom de denúncia para a ironia, mas, à medida que os tempos vão evoluindo e a guerra colonial recrudesce, bem como as prisões políticas, também o seu discurso literário se modifica para um tom mais afirmativo no sentido da intolerância contra o sistema e do desejo de mudança.

   A Dra. Dulce Almada falou igualmente de Jorge Barbosa, contextualizando-o na época em que foi publicada a Claridade, e traçando o percurso do poeta, realçando a sua preocupação de denúncia aberta contra os males que consumiam a sua terra, fruto da política colonial em Cabo Verde.

   A Prof. Dra. Inocência Mata apresentou uma comunicação intitulada «O feminino em Jorge Barbosa» que poderia ter sido muito pertinente, visto que o poeta deu uma grande importância à mulher na sua obra, mas simplesmente o tema foi tratado de uma forma de certo modo redutora e incompleta. Tratou apenas da sensualidade com que ele se refere à mulher no primeiro poema que dele se conhece «Desejo Louco», publicado em 1928, no Jornal da Europa, na sua fase muito romântica, afirmando que a mulher em Jorge Barbosa aparece mais descrita na sua beleza física e sensual do que no âmbito social, o que acontece, segundo a oradora, apenas em poucos poemas.

   Esta afirmação não corresponde de modo nenhum à realidade, pois verifica-se exactamente o contrário. São vários os poemas em que o poeta denuncia a sua condição de vítima dos flagelos da terra, tal como a menina que acaba por cair na vida pelo abandono do primeiro namorado, a quem se dera por amor, e depois levada pelas circunstâncias sociais adversas. Mas são igualmente as carregadeiras de peixe no porto, descritas de uma forma pungente na sua secura e miséria (in «Romanceiro dos Pescadores») ou erguendo um hino à mulher que resiste à fome e ao trabalho árduo e lançando heróica e teimosamente os filhos ao mundo («trágico e heróico destino/ que falta ainda contar/ o das pobres mulheres do povo do arquipélago» in «Memorial para São Tomé»).

    No entanto, foi interessante a Prof. Inocência Mata referir-se à sua faceta sensual que existe na verdade, pois Jorge Barbosa era um poeta extremamente virado para a vida e para o sentimento amoroso.

    Seguiu-se o painel dedicado a Manuel Lopes, falando, em primeiro lugar, a Professora brasileira Simone Caputo Gomes que tratou das suas experiências pedagógicas desenvolvidas no âmbito de um projecto da Universidade de São Paulo, procurando captar a identidade de um povo, por meio da apropriação de imagens, e de mecanismos criativos no cruzamento da literatura com outros sistemas semiológicos (música, pintura) e com outros campos do saber (História Social e das Artes).

    Foi assim que a Professora e os seus alunos analisaram a identidade do povo cabo-verdiano através da obra de ficção de Manuel Lopes.

   A Dra. Maria Luísa Baptista, estudiosa da obra de Manuel Lopes, fez uma brilhante comunicação a que intitulou «Artes e Malas-artes na obra de Manuel Lopes». A autora analisou a subtileza de processos da construção narrativa do conto «Galo Cantou na Baía».

   A Dra. Maria Armandina Maia, num depoimento extremamente tocante e afectivo, lembrou toda a acção empreendida no tempo em que trabalhou no Instituto Camões no sentido de divulgar a obra de Manuel Lopes com o objectivo de lhe ser atribuído nesse ano o Prémio Camões. Falou das iniciativas que se organizaram, nomeadamente a grande homenagem na Aula Magna, como da publicação do livro que lhe foi dedicado inteiramente.   

   Retratou de uma forma emocionante a figura do escritor, pondo em realce a sua estatura intelectual e moral, bem como a sua sabedoria sem alardes e a sua postura elegante que conservou até ao fim da vida.

   No segundo dia, o Simpósio prosseguiu com uma mesa presidida pela escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt, onde intervieram os escritores, Dr. Filinto Elísio, falando sobre Jaime de Figueiredo, o Dr. Arnaldo França sobre António Aurélio Gonçalves e o Dr. Mário Fonseca sobre Pedro Corsino de Azevedo.

   Filinto Elísio trouxe ao Simpósio a memória de Jaime de Figueiredo (polemista, ensaísta e artista plástico), figura emblemática que, a partir dos anos 20 do século XX, surgiu no panorama cultural cabo-verdiano, tendo sido promotor do Grupo Atlanta, proponente de uma revista literária com o mesmo nome, que não chegou a ser publicada, pois o grupo divergiu nos seus objectivos, acabando por escolher como título, «Claridade», virada para as realidades da terra cabo-verdiana e não, como queria Jaime de Figueiredo, para o Atlântico. No entanto, apesar de Jaime de Figueiredo não ter tomado parte na fundação da revista «Claridade», permaneceu atento à nova literatura e engajado aos ideais modernistas, preconizados pela revista portuguesa «Presença», influenciando os claridosos na renovação estética.

   O Dr. Arnaldo França, figura incontornável da cultura cabo-verdiana, fiel depositário da obra de António Aurélio Gonçalves, como o fora de Jorge Barbosa ou é igualmente de Baltasar Lopes, falou de «A mulher na obra de António Aurélio Gonçalves»

   A mulher, herdeira da precariedade social existente e da emigração, move-se como personagem literária da sua obra, na cidade do Mindelo, foco de convergência: dos afluentes da emigração, com o trabalho junto ao porto, como carregadoras de peixe.

   Caracterizou os comportamentos das personagens femininas, desenhadas como personagens-tipo, com algumas excepções, como Nita ou como, em certos aspectos a Pródiga, conferindo-lhes a autonomia e a densidade humanas próprias de uma personagem redonda.

   O Dr. Mário Fonseca, numa eloquente intervenção, lembrou Pedro Corsino de Azevedo, um poeta claridoso, que foi colocado um tanto à margem, e que, apesar de ter morrido apenas com 37 anos de idade e de ter deixado somente oito poemas publicados, teve uma poesia não de adolescente, mas lúcida e adulta. Por isso, ele fez um apelo aos investigadores que a estudassem melhor e que procurassem encontrar mais poemas do poeta que, por ventura, terá escrito.

   O Dr. Eutrópio Lima da Cruz, depois de uma apresentação biográfica de B.Lèza, coloca-o no contexto do Movimento da Claridade pelos mesmos objectivos, como alguém que também fincou os pés no chão, comungando do mesmo imaginário e ideário.

   O Dr. Moacyr Rodrigues também dissertou sobre «B.Lèza e a Geração Claridade». Através de um esboço sócio-cultural do espaço em que se inseriu o grupo claridoso, Moacyr Rodrigues procurou explicar como foi possível a esses jovens escritores envolver toda uma população de uma cidade-ilha, criando uma empatia capaz de dinamizar uma produção artística, literária e musical.

   B.Lèza foi, assim, também sensibilizado, tal como muitos outros músicos da sua geração, pelos objectivos da Claridade, criando uma música, ainda hoje actual e actuante.

   O Dr. Germano Lima falou igualmente sobre a «Contribuição musical de B.Lèza para a reconstituição da história sócio-cultural de Cabo Verde. Com efeito, várias são as composições musicais de B’Lèza que fazem um retrato psicossocial de S. Vicente e de Cabo Verde, o que nos faz pensar a obra musical deste autor como parte das fontes orais e escritas da reconstituição histórica de Cabo Verde, quer na sua origem local, quer na abordagem geral, nomeadamente nas dimensões psicossociais e culturais.

 

Ainda no âmbito da música, Mário Lúcio fez uma interessante análise das letras e das linhas melódicas dos contemporâneos do Movimento Claridoso.

   Começou por dizer que a história de Cabo Verde pode ser contada através da música, visto que esta anunciou a emancipação social. Depois, foi a dança das mulheres a solo no batuque e ainda na tabanca com a mulher à frente e o homem atrás, ou a mulher e o homem, frente a frente, no funaná ou a mulher e o homem, umbigo contra umbigo, no colá.

   «A música revolucionou a postura do homem e da mulher, causou a emancipação, conspirou juntamente com a modernidade, abriu mentalidades, abriu-se a outras culturas, provocou, agiu e criou um país novo», acentuou o músico Mário Lúcio.

 

No final da tarde, José Maria Semedo, Joaquim Arena e José Luís Tavares encerraram o Simpósio.

   José Maria Semedo trouxe-nos as figuras de Félix Monteiro e de Júlio Monteiro.

   Em 48 e 49, Félix Monteiro fizera um levantamento da manifestação festiva da tabanca, considerando o Dr. Semedo que havia um paralelismo entre a tabanca e o cadomblé brasileiro, sobretudo no que diz respeito à semelhança dos cultos, rezas e danças e igualmente os orixás.

   A partir de 1958, estas manifestações passaram a ser vistas com desconfiança da parte dos poderes constituídos.

    O mesmo aconteceu com os rebelados, isto é, camponeses leigos mas religiosos, que por falta de padres, oficiavam alguns rituais da igreja, o que a partir dos anos 40, lhes foi proibido, segundo disposições da igreja. Então, violentamente perseguidos pelos poderes quer religiosos, quer laicos, isolaram-se no interior da ilha, vivendo a religião segundo preceitos antigos e seguindo tradições culturais ancestrais.

   Joaquim Arena, de uma forma emotiva, como quem conta uma história, evidenciou o papel pedagógico da escola no sentido de interessar os alunos para o estudo da literatura. Fundamentava esta afirmação como uma experiência vivida por si, quando aí pelos seus 16 anos, frequentava a Escola Secundária e a professora de português propôs a leitura e a análise em trabalho de grupo, entre outras obras, a de Chiquinho, de Baltasar Lopes que foi escolhida pelo grupo que constituiu. Foi esse o seu primeiro encontro com a literatura das suas ilhas, felizmente com uma obra-prima da literatura cabo-verdiana.

    O seu grupo reunia-se em sua casa que, com a ajuda da sua avó cabo-verdiana, que se deliciou em poder colaborar, explicando muitas coisas que fazem parte do imaginário e da cultura da sua terra, conseguiram fazer um trabalho que foi muito apreciado pela turma e pela professora e que viria a motivá-lo a ser o que hoje é - jornalista e escritor, paralelamente à sua formação jurídica.

 

   José Luís Tavares, poeta dos mais prestigiados da última geração de Cabo Verde, nomeadamente com o seu livro Paraíso Apagado com Um Trovão, procurou dar um testemunho como poeta do que deveu à Claridade.

   «Importou-me sempre mais a insularidade humana do que os conteúdos telúricos dos poetas.» E continuou: «Não vejo nenhum poeta da minha geração reivindicar a sua herança da Claridade, mas nem é preciso, pois cada qual tem o seu entendimento e a sua estética. Mas o que eu sinto sobre o que herdei da geração claridosa é essa liberdade de que nos falou Rimbaud.».

   A terminar, José Luís Tavares recitou um poema do seu livro acima referido.

 

   Os debates que se seguiram a cada painel foram extremamente interessantes e algumas das intervenções que se ouviram, valiosas para o diálogo entre gerações.

 

   Não podemos terminar sem nos referirmos a toda a morabeza com que fomos recebidos, e muito especialmente à presença do Senhor Ministro da Cultura, Sr. Dr. Manuel Veiga, nunca faltando a nenhuma sessão, e estando presente nos debates com as suas intervenções pertinentes e convivendo fraternalmente com todos os participantes.

   Também felicitamos a organização pelas actividades paralelas que nos proporcionou, como a exposição e venda de livros, a exposição de artes plásticas (cerâmica e de pintura) e as peças de teatro, encenadas por João Branco, como ainda o passeio à Cidade Velha, tendo por guia o historiador Daniel Pereira e, a finalizar, a gala, onde nos deram a conhecer vários músicos de grande qualidade.

 

 

 

Exposição de Pintura de Kiki Lima

«Xiquinha, romance pintóde»

 

 

 

A Exposição de Pintura de Kiki Lima, a que ele intitulou «Xikinha, romance pintode» foi, de facto, notável e constituiu um momento alto nas artes plásticas de Cabo Verde.

 Tal como um livro que se lê, página a página, formado por treze quadros, cada um deles com um verso que ilustra uma cena da vida quotidiana de Xiquinha, este romance pintado revela não só o valor como artista plástico de Kiki Lima, com aquela qualidade a que nos vem habituando há vários anos, mas igualmente o poeta e o homem de cultura arreigado à sua terra.

    Tecendo em tela a vivência de uma mulher, como tantas outras, que se apaixona e é depois abandonada, traz-nos, porém, uma mensagem positiva de esperança. Xiquinha recusa-se a perder-se nos caminhos da vida, emigrando e colhendo no estrangeiro conhecimentos e meios materiais que lhe permitem regressar à terra amada de coração aberto, «já podendo rir», com a consciência de que lutara pela educação e sobrevivência dos seus filhos e não fracassara.

   A cor, o movimento, o sentido de tragicidade, como de euforia e de alegria, são impressas em pinceladas vigorosas, por vezes, impressionistas, em manchas sugestivas, num figurativo de muita mestria.

 

                                                         

O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo

 

A Caderneta de Baltasar Lopes

posta em cena por João Branco

 

 

    A peça de teatro, encenada por João Branco, adaptada ao conto de Baltasar Lopes, A Caderneta, foi outro momento relevante deste Simpósio.

   O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, mais conhecido por Mindelact, dirigido por João Branco, fez uma exibição de maturidade artística, tanto pelo desempenho da talentosa actriz, Mirita Veríssimo, como pela direcção cénica de João Branco, que tem tido uma actividade cultural dinamizadora, em Cabo Verde, de grande mérito.

   De facto, a sua encenação foi magistral, transformando um conto, em forma de monólogo, numa peça dramática, em que o acompanhamento musical ganha a força de uma outra personagem.

   O texto de Baltasar Lopes é um monólogo intenso de denúncias e de dor da parte de uma mulher anónima, abandonada e atirada, pelas circunstâncias adversas, para o mundo da prostituição, conservando, porém, uma consciência dilacerada e uma certa pureza que são acentuadas no acto teatral pela forma ansiosa e angustiante como o público é interpelado por ela. E esta interpelação é tanto mais dramática quanto maior é o sentimento de culpa que vai crescendo em cada um de nós, enquanto entidade colectiva, a quem cabe a sua quota parte de responsabilidade.

   É todo este universo de sentimentos, de revoltas, de culpas que João Branco acentua, não só pela adaptação esteticamente correcta desse extraordinário texto de Baltasar Lopes, mas por uma encenação vigorosa, em que a personagem, brilhantemente interpretada por Mirita Veríssimo, se confronta corpo a corpo com o público e a música, dirigida por Nuno Tavares, e tocada, oportuna e eximiamente, configura e faz realçar num crescendo progressivo, os dramas milenários do espaço-ilha.  

 

 

                                                                                     Elsa Rodrigues dos Santos