Teolinda Gersão
Teolinda Gersão nasceu em Coimbra. Formou-se em estudos anglísticos e germanísticos, estudando na Universidade de Coimbra, e na Alemanha, em Tuebingen e em Berlim.
Foi leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim. Docente na Faculdade de Letras de Lisboa e, posteriormente, professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada, até 1995. A partir dessa data passou a dedicar-se exclusivamente à Literatura.
Além da
permanência durante três anos na Alemanha, viveu dois anos no Brasil, em São
Paulo. Em 1984, publicou o romance Os
Guarda-Chuvas Cintilantes, que reflecte a sua vivência nestas cidades.
Viveu também durante dois anos em Lourenço-Marques e depois voltou, pela
segunda vez, à capital moçambicana. A partir das recordações desta estadia,
escreveu A História das Palavras, cuja
acção decorre nessa cidade. Foi escritora residente na Universidade de
Berkeley, em Fevereiro e Março de 2004. Estudou música no Conservatória entre os
7 e os 18 anos, dado biográfico importante para se compreender a estrutura ou a
arquitectura da sua obra, sobretudo em Os
Teclados.
Livros Publicados:
O Silêncio (romance), 1981
Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo (romance)
História do Homem na Gaiola e do Pássaro Encarnado (literatura infantil)
Os Guarda-Chuvas Cintilantes (diário ficcional), 1997
O Cavalo de Sol (romance), 1989
A Casa da Cabeça de Cavalo (romance), 1993
Os Teclados (narrativa), 2000
Os Anjos (narrativa), 2000
Histórias de Ver e Andar (contos), 2002
O Mensageiro e Outras Histórias com Anjos (contos), 2003
Nota: Os Teclado, Os Anjos e A Casa da Cabeça de Cavalo foram dramatizados e as versões teatrais foram representadas. Os Teclados em 2001, encenada por Jorge Listopad, Os Anjos foi representada, em 2003, pelo Bando e encenada por João Brites.
Quase todas estas obras foram traduzidas para alemão, francês, romeno, espanhol e inglês.
À obra de Teolinda Gersão foram atribuídos prémios literários como, por duas vezes, o Prémio de Ficção do PEN Clube, O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio da Crítica da Associação Internacional de Críticos Literários e o Prémio Fernando Namora.
A Casa da Cabeça de Cavalo
(Grande
Prémio do Romance
e Novela da APE)
Lisboa,
Dom Quixote, 1995
O romance inicia-se, tendo como principal motivo, a cabeça de cavalo de bronze escuro, cravada na parede de pedra, junto à porta de entrada de uma casa que ficava situada no extremo da Vila, na Travessa do Assombro, não muito longe da Azinhaga da Torre.
E principal motivo, quase um protagonista, porque esta cabeça de cavalo vai corporizar-se em corpo inteiro e transformar-se-á num belo cavalo que, a horas e a desoras se soltará da casa para seguir pelas ruas, espantando os transeuntes com as suas intrépidas aparições. Umas vezes (e cito): «sem ruído, recortando-se com nitidez, como uma sombra escura contra as paredes brancas da Vila adormecida.» Outras vezes, «resfolegando de prazer, misturando o seu corpo ao ar muito livre das estrelas, passando do passo ao trote, do trote ao galope, avançando mais e mais, até não haver diferença entre ele e a noite.»
Uma das pessoas que se gabava de o ter visto era Zé Moitinho que, de susto, saltara o muro e se agachara, mas vendo-o a assomar em cima do muro, «pronto a devorá-lo» perdera os sentidos.
Começa, assim, a narrativa sob o signo do fantástico ou do fantasmagórico, remetendo o romance para outros tipos de discurso. Aliás, essa é uma característica comum a quase todas as obras de Teolinda Gersão como o seu romance Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo, onde há uma forte alusão a Salazar, à ditadura e à petrificação de usos, costumes e tradições, tão ligados à opressão com todo o simbolismo dos seus cultos e crenças e que terá o “volte-face” com a cena da queima do Santo do Mar, destruindo o símbolo do poder.
O mesmo acontece em O Cavalo de Sol com a religiosidade macabra própria de um regime ditatorial e freirático que irá ter continuidade no seu livro Os Anjos, na expurgação desse religiosismo castrador, responsável por uma visão deformadora da vida da polis. Deste modo, os novos anjos, pela voz da pequena Ilda, desafiarão o futuro, negando a sacralidade e a tradição.
Mas, voltando à Casa da Cabeça de Cavalo, esta casa estava há muito fechada e todos os seus habitantes já eram falecidos.
Na Vila
dizia-se «que nas janelas apareciam luzes, que logo se apagavam quando alguém
mais afoito se aproximava». Havia quem afirmasse ter visto alguns dos seus
antigos moradores a vaguearem por ali, «mas quando chegavam perto já não viam
ninguém, era só um ramo de árvore, uma mancha na terra, a sombra de uma nuvem
no chão».
A narração retorna ao passado para nos revelar a vivência dessas personagens que, outrora, tinham povoado esta casa. Mas retorna a um tempo sem tempo em que as personagens se volatilizam e se tornam invisíveis, fantasmas que cumprem os rituais do dia-a-dia, como tomar chá, com as chávenas vazias, pois que nessa dimensão já não necessitam desta coisa prosaica, mas necessária, na vida real, que é comer e beber.
Ercília, o Avô Januário, o Tio Inácio, a Tia Carmo, a prima Horária, Maria Benta e o pequeno Paulinho comunicavam agora em perfeita harmonia e condescendência sem se irritarem, sem se incomodarem com as opiniões de cada um ou com o barulho que Paulinho fazia, esse miúdo tão traquinas que fora morrer na ribeira, enlouquecendo a mãe de desgosto.
Por vezes jogavam às cartas, tranquilamente e não com a ansiedade e a tensão com que tinham jogado toda a vida. E contavam histórias do passado, como por exemplo, como fora a morte de cada um deles ou a última recordação.
Esta descrição sobre as suas mortes, relatadas de uma forma tão natural e tão simples é tão arrepiante quanto singela.
Da mesma forma, a reflexão sobre o valor das palavras e a velha questão do estilo surge sabiamente pela personagem Januário que, a pedido de todos os outros, vai tentar passar para escrito tudo o que se lembrariam do passado naquela casa. «A grande questão com que esbarrara sempre e o impedira a vida inteira de realmente escrever fosse o que fosse» era, na verdade, o estilo. E depois interroga-se: «dever-se-ia ter primeiro um estilo, e de acordo com ele, escolher as palavras? Ou eram, pelo contrário, as palavras escolhidas que iam depois definir o estilo?»
São, portanto, interrogações com que a própria autora, enquanto escritora, se debate todos os dias e que são transportadas para uma das personagens da obra.
Esta reflexão metalinguística é, portanto, dentro da estrutura da obra, um outro discurso, que, apesar de estar inserido numa sequência lógica, acaba por ser uma nota dissonante, mas, ao mesmo tempo, polifónica.
Começa, então, neste momento, propriamente a acção do romance com as inúmeras histórias que vão ser narradas, segundo as lembranças de cada um e que Januário registrará no seu velho caderno. Lembranças a que eles preferiam recuar até a um tempo mais antigo.
Assim, Januário conta que, no ano de 1834, depois da partida de D. Miguel para o exílio e dois meses depois da Convenção de Évora Monte, houve um acontecimento nada previsível naquela família. Um estrangeiro chegou à Vila, e inesperadamente casou com Maria do Lado, que era ao tempo a filha mais velha da Casa da Cabeça de Cavalo.
Maria do Lado era muito baixa, sem nenhuns dotes de beleza, com uma expressão rígida e sem graça. Ao contrário, sua irmã Virita, a irmã mais nova, era graciosa, alta e bonita. Quando o francês apareceu na Vila começou a frequentar a casa e as festas e era para Virita que iam as suas atenções, encantado com a sua beleza e alegria. Só que, um dia, sem mais nem menos, o pai, Duarte Augusto, homem de poucas falas e de temperamento irascível, chamou-o ao gabinete e, depois de longa conversa, ficou marcado o casamento de Philipe, não com Virita, mas com Maria do Lado, a filha que toda a vida o seguira e o idolatrava, embora ele lhe tivesse demonstrado sempre a sua indiferença.
Virita, nesse dia, tentou suicidar-se, saltando da janela do primeiro andar e só não morrera, porque as saias de balão a salvaram, amortecendo a queda.
Virita nunca viria a casar-se, apesar de ter tido pretendentes, pois optara por ficar solteira, cuidando cada vez mais da sua beleza, atazanando a irmã, com a sua presença e os olhares ao homem que amava.
Estabelece-se um clima de ameaças e de suspeitas, de sentimentos sufocados, de revolta, de mágoa e de culpa que ficava pairando no ar, impregnando-se na casa e no espírito de cada um. Clima que o pai atribuía ainda às invasões francesas, acontecidas vinte e sete anos antes em Portugal, recrudescendo nele o ódio aos franceses e a Philipe, por ser francês e por ir herdar, um dia, a sua fortuna. Crescia-lhe também o arrependimento por ter sido ele a proporcionar este casamento.
Entretanto, Virita propõe, um dia, a Philipe que ele lhe dê lições de francês e estas acabaram por se tornar em lições de códigos e de troca de bilhetes, combinando encontrar-se nas mais variadas horas e lugares. Deste modo, libertavam o seu amor e a ânsia, há tanto contida, de se terem um ao outro.
De recordação em recordação que cada personagem ia contando a seu modo, levantando o véu dos mistérios desta família e desta casa assombrada, o romance vai crescendo de tom, tal como numa partitura, onde os sons se elevam em força e melodia até atingirem a coda final.
Os vários clímaxes da obra sucedem-se, sobretudo em momentos como nascimento e morte, aparições e desaparecimentos, como uma nuvem que se evapora.
Com efeito, por altura do parto de Maria do Lado, dando à luz o seu único filho varão, a sua escrita sublima-se nesse capítulo surpreendente em que a criança rasga as entranhas da mãe e salta para a vida.
O traço magistral de Teolinda Gersão vai assombrar ainda o leitor, nas últimas páginas, no esfumar da memória de cada uma das personagens, em gestos cada vez mais lentos, nas frases descompassadas, soltas, já quase inexistentes ( « um resto de memória que se ia gastando, como uma vela de cera, e quando acabasse também eles chegariam ao fim e não haveria mais nada.»
(…) Então apagaram-se as luzes, um relincho atroou os ares, algo passou por eles vertiginosamente, tocou-lhes no rosto como uma labareda, e a Casa desapareceu.»
O cavalo, tal como no princípio, volta a aparecer, na sua corrida louca, num rasto de alucinação e morte, ou melhor, como que anunciando o desaparecimento, por magia, da casa e dos espíritos que a povoavam. E mais ainda do fim do romance.
Esta cena final que se liga às primeiras páginas do livro, com a aparição do cavalo, numa estrutura circular, testemunha o grande talento desta escritora que se situa na literatura portuguesa num lugar cimeiro, o que leva Eduardo Prado Coelho a afirmar numa das suas crónicas do Público:
«A admirável cena espectral que Teolinda Gersão constrói para o deslumbramento do leitor é fundamentalmente uma recuperação da morte pela corrida insensata do cavalo. É, assim, sem surpresa que vemos nos jornais que o júri do Grande Prémio de Ficção distinguiu A Casa da Cabeça de Cavalo. Trata-se da consagração muito justa de uma escritora que, em 95, publicou o seu melhor livro.»
Não sabemos se, de facto, este é o seu melhor livro, mas é, com certeza um dos melhores romances da actualidade.
Elsa Rodrigues dos Santos