Tipos de Ironia

 

 

Teresa -  A Dra. Elsa na semana passada disse-nos que havia cinco tipos de ironia e falou-nos da ironia pura e da sátira.

Hoje irá certamente tratar dos outros três tipos de ironia. Não é verdade?

Elsa -  Exactamente. Conforme já referi, consideram-se cinco tipos de ironia:

1. Ironia pura

2.      Sátira (de que já falámos)

3.      Ironia disfemística

4.      Ironia restritiva

5.      Ironia contornante

Teresa - Então o que é a ironia disfemística?

Elsa - A primeira forma de disfemismo consiste em negar às pessoas o carácter de extraordinárias, de únicas, de insubstituíveis, portanto, é uma primeira forma de desprezo.

Teresa - Pode dar-nos um exemplo?

Elsa - Então lá vai um texto do Camilo que não há como ele para exemplificar a ironia. Claro que não estou com esta afirmação a ser precisa, porque o Eça, o Fialho de Almeida, entre os clássicos, são outros dois grandes monstros da literatura, nomeadamente da fina ironia portuguesa.

 

 «- Então o Sr. Morgado não serve para administrar corações?

     - Serve para os dominar com a sua bondade e enchê-los de afectuosa estima – respondeu com adorável graça a menina.

     Foi neste instante que o Morgado sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor de ventosa acompanhada de vibrações eléctricas e vaporações cálidas que lhe passaram à espinha dorsal e daqui ao cérebro e, pouco depois, a toda a cabeça, purpurando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.»

 

«E enquanto eu adorno a carcassa, prepara mais frases sobre Satanás.»

 

A ironia disfemística é uma ironia de apoucamento, atribuindo, por vezes, características animais ao homem, outras, utilizando sufixos diminutivos

 

Ex: Volto ao poema de Mendes de Carvalho, «Os Pobrezinhos»

 

Os Pobrezinhos

Tão engraçados

Pedem esmolinha

Com mil cuidados

 

Todos sujinhos

                                               E tão magrinhos

A linda graça

Dos pobrezinhos

 

De porta em porta

Sempre rotinhos

                                               Tão delicados

Os pobrezinhos

 

Não façam mal

Aos pobrezinhos

Dêem-lhes pão

E tostõezinhos                 

    

Os pobrezinhos

tão engraçados

pedem esmolinha

com mil cuidados.

 

Teresa - E agora vamos à ironia…

Elsa - Restritiva que se compraz na redução, no estreitamento cada vez maior de amplitudes.

 

País decimal em tudo

Com razão ou sem razão

Dez metros prá nossa vida

E dez tábuas pró caixão

 

Temos dez dedos nas mãos

Temos dez dedos nos pés

Temos cinco governantes

Mas governam como dez

 

Dez discursos cada dia

Dez degraus para a glória

Dez decretos por semana

Dez folhas d’oiro na história

 

Somos dez pobres só dez

E não nos deixam ser mais

Quer nós queiramos quer não

Temos de ser decimais

 

Queremos a cama no

Ter por lençol o luar

Como não queremos ser ricos

                                                Vamos todos emigrar.

 

                                                                   Mendes de Carvalho

 

   A redução à escala decimal é uma forma de ridicularizar as super-estruturas e as bases sócio-económicas do país.

 

Teresa - Falta-nos ainda a ironia contornante. Em que consiste?

Elsa - O sentimento de superioridade de quem critica e usa de ironia radica, por vezes, numa indiferença que nega a precisão, desdenhando voluntariamente o rigor. O ironista situa-se no pólo oposto do dogmático: nada afirma, a nada adere com toda a alma.

 

   Ex: «-Oh ele há frade no caso?

         - Há … e que frade! Um apostólico às direitas! Tão feio, tão magro!... aparece por aí às vezes.»

 

 

                                                                            Almeida Garrett

                                                                            Viagens na minha terra

 

 

Climas de Ironia

 

 

Teresa -  Hoje vamos continuar  com a matéria da ironia, mas em que perspectiva?

Elsa - Vamos tratar dos climas da ironia

Teresa - E de que dependem os climas de ironia?

Elsa - Dependem do tom em que se fala.

Teresa - E que tons se podem considerar?

Elsa - O tom ingénuo, o tom retórico, o tom sagrado, o tom científico, o tom familiar.

Teresa -  Vamos, então, começar pelo tom ingénuo.

Elsa - O ingénuo forçado vai desde a insinuação aparentemente despreocupada até à simulação da ignorância ou da dúvida.

     Costuma-se, por vezes, apelidar de cínicas as pessoas que dizem coisas contundentes com um ar muito amável e ingénuo.

     Eça de Queirós é perito em construir essas situações: Vejamos este texto:

 

     «Depois, reclinando para as costas da cadeira, e abrindo o leque, declarou, a transbordar de ironia que, talvez por ter a inteligência curta, nunca compreendera a vantagem dos «métodos». Era à inglesa, segundo diziam: Talvez provasse bem em Inglaterra, mas ou ela estava enganada ou Santa Olávia era no reino de Portugal»

 

     Mas o que é essencial no tom ingénuo é a aparente ausência de segundas intenções, a arte de deixar nas entrelinhas o que se deseja que fique a pairar no espírito dos outros e penetre profundamente neles.

 

     Ex: «Conquanto se não conheça bem a razão disto, a verdade, porém, é que o milagre aumenta de efeito, segundo a categoria social daqueles em que se exerce.»

 

     É esse efeito, num sentido mais lato, que se procura em peças cómicas, em que o espectador sabe de antemão que a cena a que assiste é uma forma de ludíbrio que terá um papel preponderante no desenrolar da acção.

     Em Aquilino Ribeiro, a sua personagem Malhadinhas professa sentimentos completamente opostos a que as suas palavras amáveis fazem supor:

 

     «- Tivesse eu sede, mas nem raça… Não teime… Olhe que lhe fico agradecido na mesma…Valha-me Deus!... Se lhe pego é para fazer a vontadepara não parecer desfeita. Cão de Duarte que não sabes dar o galardão a quem o merece. À sua saúde, tia Joaquina!»  

 

     Coitado e coitadinho exprimem comiseração irónica ou resposta a ditos de troça, como se se quisesse fazer sentir que aquilo que leva outrem a falar o torna digno de compaixão:

 

     « - Amigos?!- Eu não tenho amigos dessa laia

     -_Dói-lhe a testa, coitado!»

 

                                           Miguel Torga

                                           «Magos» in Bichos

 

     «- Tão coitadinho que seria caridade dizer-lhe ao passar uma porta: Baixa que marra!»

 

                                     

Tom retórico

 

 

Teresa- Então hoje vamos continuar a falar dos tons da ironia.

Elsa -  Trataremos do tom retórico, em primeiro lugar. Baseia-se numa hipérbole de espírito este processo tão frequente que consiste em adoptar um tom enfático, «grandíloco», em dar o aspecto de discurso empolado a afirmações banais.

 

Ex:

     «Exclamou das profundidades do seu conforto, no antigo tom de ênfase boémia dos Paços de Celas:

     - O Sr. Baptista não tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma ninfa de Rubens, senhor- Madame Rudhel tinha o esplendor duma Deusa da Renascença, senhor! Madame Rughel  devia ter dormido no leito imperial de Carlos Quinto…

   Retire-se, senhor!

 

                                           Eça de Queirós

 

Outro ex:

 

     «Tomámos uma «citadine» e fomos, com efeito à nova e elegante rua, chamada, não impropriamente, a rua de Londres, onde achámos, rodeada de todo o esplendor do seu ocaso, aquela formosa estrela do Império.»

 

     As invocações, as exclamações, ao gosto clássico conferem um tom solene. A atitude hiperbólica revela-se na substituição de termos comezinhos e vulgares, por correspondentes da linguagem literária. O efeito cómico provém principalmente da intenção de enobrecimento

     Mais outro exemplo:

 

   «Nem o próprio demo o julgaria capaz de, por uma nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão.»

 

                                   Aquilino Ribeiro

 

Teresa - E agora creio que nos faltam  ainda o tom sagrado, o tom científico e o tom familiar.

Elsa - Falaremos agora do tom sagrado. O primeiro efeito deste processo é de natureza hipersémica. Neste aspecto, a adopção da linguagem religiosa é comparável à escolha de um tom retórico.

 

 Ex:

     «Devo dizer, à face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me expuseram negócio que se me afigurasse mais inteligível, mais recto e mais claro!»

 

O uso de expressões que não pertencem propriamente à linguagem religiosa mas que se relacionam com ela, clarifica a Génese do processo: procura-se fazer participar uma afirmação da gravidade, da solenidade de um facto religioso.

 

 

Tom Científico

 

 

Teresa - Então vamos ao tom científico da ironia que deve ter um tom semelhante ao do tom sagrado.

Elsa - Exactamente em virtude do seu carácter hipersémico, isto é, de natureza hiperbólica, tal como já vimos quer no tom retórico, como no sagrado.

 

     Ex: «Chega o autor ao pinhal de Azambuja e não o acha- trabalha-se por explicar este fenómeno pasmoso.»

     Portanto, quando a afirmação é evidente ou comezinha, o recurso no princípio científico fere pela sua inutilidade, pelo seu desajuste às situações.

     O rigor do método científico traduz um desejo de exactidão que implica a importância do objecto de estudo: a ironia nasce justamente do contraste entre a importância ficticiamente atribuída e a importância real do objecto:

 

     «A canja portuguesa, ou antes, infelizmente- para que o digamos com mais exacção geográfica- a canja do Cercal, é para a nossa cozinha um puro monumento histórico»

 

 

                                                   Tom Familiar

 

Teresa -  E agora para terminar este assunto dos tons da ironia, temos o tom familiar, não é verdade? Em que consiste?

Elsa - A linguagem que usamos depende das circunstâncias em que falamos e da atitude que tais factores nos impõem. A primeira característica da linguagem familiar provém de ela ser essencialmente oral. Por isso, há o predomínio da emotividade e da espontaneidade.

     É, assim, diferente da linguagem escrita que consagra determinadas formas e construções para cada estilo. A única linguagem escrita próxima da linguagem familiar é a carta entre amigos ou familiares.  

  

     Desta atitude de à-vontade e de bonomia nasce um clima de humor. Nas Viagens na minha terra, por ex: o uso de um estilo familiar é um dos recursos mais constantes do humor garretiano:

 

     Ex: «A ciência deste século é uma grandessíssima tola. E, como tal, presunçosa e cheia de orgulho dos nécios

 

     Virgílio Ferreira aponta como uma das causas da ironia queirosiana a interferência do familiar no solene e vice-versa, de forma a produzir um desequilíbrio no que expõe. E dá como exemplo, um passo em que Eça troça da «urna das eleições», afirmando que nalgumas terras se deveria chamar «caixote», «vasilha».

     O termo familiar evoca, pelo uso habitual, alguma coisa muito comum e banal.

     Por vezes, utiliza-se na linguagem familiar a gíria, intensificando o efeito de contraste e a visão disfemística.

 

     Ex: «Os candidatos gritam sempre, no último período dos seus manifestos, transportados de furor constitucional:

     - Cidadãos, à urna!

     É puramente uma denominação sentimental.

     Para serem exactos, deveriam exclamar, em certas freguesias:

     - Cidadãos, ao caixote!

     E noutras:

     - Cidadãos, à vasilha!

 

                                                     Eça de Queirós

                                                     Uma Campanha Alegre

 

     Outro exemplo contendo um vocábulo da gíria:

 

     «Assim ele pôde ascender sem protesto, lentamente, seguramente de simples orago nominal da igreja política, à quase omnipotência dum Jeová conciliador mas firme, bonacheirão mas gajo, distribuidor de todas as graças e fortunas políticas, mola real de todos os manejos, e poder oculto de todas as situações.»

 

 

                                                    Fialho de Almeida

                                                     Os Gatos

 

Consultar:

 

Maria Helena de Novais Paiva, Contribuição para uma estilística da ironia, Publicação do Centro de Estudos Filológicos, Lisboa, 1961.             

 

    

                                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos