A Tradução e os seus problemas
Teresa - E hoje ainda vamos continuar com os problemas da tradução?
Elsa - Ainda vamos continuar, porque ao mesmo tempo que vamos reflectindo sobre questões da tradução, cuidaremos de aspectos da teoria da literatura que me interessam aqui explorar.
Teresa - E que aspectos são esses?
Elsa - Hoje trataremos da importância do som, ritmo e significado. Ora o som, na obra literária e especialmente na poesia, é também um elemento da estrutura ausente ou, como afirma Lotman, «a sonoridade musical do discurso poético é também um modo de transmissão de informação» ou seja, do conteúdo. As repetições e alternâncias de sons (aliterações, assonâncias, rimas, rimas internas) a curta distância uns dos outros, constituem a realização fónica do texto na sua plenitude acústica. È evidente que o som, apesar do seu valor expressivo, não funciona isoladamente (excepção feita para os sons onomatopeicos, que possuem um maior valor autónomo), mas sim como adjuvante do ritmo e do significado das palavras e das frases.
O som, de qualquer maneira tem, muitas vezes um valor hipnótico. Ezra Pound considerava existir, na melhor poesia um resíduo de som que o ouvido retém e que funciona como substracto sonoro. Na sua forma mínima, o som cria, pois, o ambiente acústico em que o texto se desenrola.
Teresa - E em certos escritores simbolistas e parnasianos como Verlaine, Rimbaud, a musicalidade na poesia era essencial.
Elsa - A musicalidade fazia mesmo parte da estrutura do poema. E eu vou citar um escritor português que vem na mesma linha de Verlaine ou de Rimbaud que é Eugénio de Castro.:
O poema «O sonho»:
«Na messe, que enlourece, estremece a quermesse…
O Sol, o celestial girassol, esmorece…
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos…
As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros…
Cornamusas e crotalos,
Cítolas , cítaras, sistros,
Sons suaves, sonolentos
Sonolentos e suaves
Em suaves
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves…»
que se repetem alternadamente são responsáveis pela eufonia que simboliza o sonho.
Neste poema de Eugénio de Castro, as assonâncias e as aliterações associadas ao refrão
Deste modo, diremos que o som pode ser um elemento estruturante da realidade temática da obra, como pode ser elemento de união entra similares e contrários, enfim , pode assumir vários valores.
Teresa - Então como traduzir essa musicalidade principalmente para línguas de estruturas totalmente diferentes?
Elsa - Pois aí está a grande dificuldade da tradução poética quando não se encontra minimamente as correspondências , inclusive, sonoras. Daí que, como já dissemos nas sessões anteriores, o tradutor de obras literárias tem de apostar essencialmente na interpretação. Sem ela não pode haver tradução correcta. No caso de poemas como os referimos hoje, as unidades micro-estruturais (rimas, aliterações, ritmos, etc.) podem ser profundamente prejudicadas quando o poema é vertido para um idioma de configuração morfofonológica muito diversa, tornando-se a sua tradução quase impossível.
Bibliografia:
LEAL, Luís, O labirinto do Texto, Lisboa, Universitária Editora.
Elsa
Rodrigues dos Santos