Urbano
Tavares Rodrigues
A Última Colina
Contos
Neste livro de contos de
Urbano Tavares Rodrigues reside a memória e a recriação de acontecimentos
reais, onde põe em questão problemas do nosso tempo numa perspectiva política,
e sobretudo social. Contos nos quais tem lugar o amor como em «Le Bel Été», ainda que fatídico
mas romanticamente comovedor, ou em «O Amor e o Tempo na Casa ao pé do rio»,
onde os amantes se refugiam longe do mundo cruel, fechando a porta «a todos os
tormentos e misérias» para viverem em liberdade o seu amor.
Surgem diante de nós
personagens surpreendentes, como aquele negro que ataca o taxista para o
roubar, ameaçando-o com uma faca contra o pescoço, mas quando o feitiço se vira
contra o feiticeiro, isto é, o taxista consegue desarmá-lo com um revólver, ele
torna-se um ser desprotegido. Entretanto, acaba por confessar que era servente
de pedreiro, tinha mulher e filhos e estava desempregado. O taxista humaniza-se
também, não havendo nele nenhuma espécie de rancor. Perante o queixume do
assaltante de se encontrarem longe dos transportes, o taxista leva-o a uma
paragem de autocarros e ainda o reconforta com uma golada de café que tem num
termo.
Este é o reflexo da
capacidade do autor de compreender o ser humano, mesmo nas suas fraquezas ou
baixezas, quando elas são condicionadas pela fome e pela miséria. Este sentido
de intervenção social está patente em muitos outros contos, a iniciar no
primeiro conto, intitulado «Judas», em que o director de uma fábrica simula uma
recessão para fechá-la e um dos membros da direcção, de nome Jesualdo, não concorda com esta decisão, colocando-se ao
lado dos trabalhadores que, entretanto, se manifestam lá fora. Ele abandona a
reunião de direcção para se juntar aos operários que, quando o vêem, o insultam
de Judas e traidor. A polícia intervém e atinge Jesualdo
que acaba por ser levado numa ambulância para o hospital. Na forma como os
trabalhadores recebem este membro da direcção com apupos e ameaças há uma visão
realista, pois o que na verdade funciona numa manifestação de grupo é apenas a
consciência de classe, podendo dar lugar ao tremendo equívoco, como aconteceu
neste caso.
Este conto dir-se-ia
retirado de uma antologia da ficção neo-realista, pois possui todos os
ingredientes característicos da temática desse movimento literário, desde a
luta dos trabalhadores operários de uma fábrica contra a exploração e a
insensibilidade dos patrões à importância do sentido de classe. Simplesmente
termina de uma forma violenta que se assume igualmente como uma chamada de
atenção para o valor do indivíduo seja de que classe for.
No conto «Um Dia na
Vida» surge uma outra faceta do autor, pois o mágico e o fantástico
entrelaçam-se com situações reais, podendo, assim, esta narrativa ser inserida
no realismo mágico, no qual o onírico tem um peso tão forte como o real. É um
texto escrito na 1ª pessoa, confundindo-se o autor com o narrador que é,
igualmente, personagem. Trata-se, pois, de um narrador autodiegético,
localizado numa cidade inominada, mas que pode ser uma qualquer da Europa com
os seus edifícios altos encimados de estátuas colossais. Talvez Paris, com a
sua beleza misteriosa e imponente dada por essas esculturas, cujos olhares de
pedra pareciam à personagem segui-la, estátuas «que guardavam ciosamente a sua
verdade, mas que queriam sussurrar-lhe algum segredo.»
O sujeito actante
dirige-se com a sua mulher para uma recepção que irá ter lugar num palácio, e
ao subir as escadas tem a sensação de que dos nichos saíam máscaras falantes e
que «os homens ali retratados viviam ainda a suprema vida das ideias e que o
interpelavam». As estátuas representavam Platão e Aristóteles, Jesus, Marco
Aurélio, Francisco de Assis, Thomas More, Campanella, Copérnico, Descartes, Rousseau, Karl Marx. E outros bustos como os de Malraux,
Aragon, Claude Roy, Sérgio, Cortesão e Álvaro Cunhal que lhe falavam
directamente, tratando-o pelo nome. Eram, afinal, os ícones da cultura
ocidental e alguns da portuguesa que o tinham formado, por isso sentia que
aquele palácio tinha mais que ver com ele do que jamais poderia ter imaginado.
Dentro do palácio,
porém, havia gente do dinheiro e da alta finança que falava de negócios.
Entretanto, inesperada e imprevisivelmente, como que saído de um quadro
salazarento, um homem ainda novo, alto, de rosto muito magro sobe para cima de
uma mesa e faz um discurso contra os poderes, realçando a agonia da liberdade e
da mentira que os rodeava. Imediatamente chegam os seguranças que, sem
contemplações, o arrastam para a saída. Neste momento, também
imprevisivelmente, um sismo abala a cidade e as estátuas caem e as vigas do
palácio são derrubadas. Perto, muita gente fica soterrada debaixo dos
escombros. Pouco depois, um grupo de jovens tenta salvar essas pessoas,
procurando retirá-las de baixo dos vigamentos, e logo
outras e outras se iam juntando em acções espontâneas de salvamento.
Esta solidariedade vibra
no coração da personagem/autor/narrador como um raio de luz e de esperança no
universo dos interesses e do egoísmo social e tudo isto é dado através de
acontecimentos oníricos, fantásticos, imprevisíveis, mas onde a intenção
interventiva e ética do autor é um objectivo.
E ainda na área do
fantástico, a loucura, quer no conto «A Rapariga da Igreja dos Clérigos», quer
em «Os Três Anjos Loucos» cumpre-se, na primeira narrativa, pela via de um erotismo
levado ao extremo, e, na segunda, através da maldade de duas raparigas contra
um rapazito que as espreitava no bosque e, de castigo, o despem e prendem-no
contra uma árvore e o maltratam, e da bondade da terceira rapariga que o
liberta e se inebria eroticamente com a sua nudez.
Estes são alguns dos
contos de A Última Colina,
(lida aos
microfones da RDP Internacional)
Elsa Rodrigues dos Santos