O valor estilístico do artigo indefinido

 

Teresa - Então hoje ainda vamos continuar com o valor estilístico do artigo?

 

Elsa - Sim. Mas com o valor expressivo do artigo indefinido. Até agora temos tratado do artigo definido.

 

Ora as virtualidades estilísticas e expressivas do artigo indefinido estão exactamente na imprecisão e indefinição que estão contidas nele próprio. Serve, portanto, para traduzir a indeterminação, por vezes, o mistério, a dúvida, a hesitação.

Vejamos este texto de Eça de Queirós, em que se descrevem as hesitações dum possível arrendatário de uma quinta numa aldeia.

Ex: O José Casco voltou ainda com a mulher; depois, num domingo, com a mulher e um compadre, - e era um coçar lento do queixo rapado, umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquela manhã de Junho intoleravelmente longa ao Fidalgo.»

 

Na frase: «João apressou o passo com um esforço justificável pelo desejo enorme de ainda encontrar Joana em casa». Se disséssemos apenas «com esforço» não alcançaríamos o mesmo efeito.

 

Teresa - Pois não. De facto, dizer «com um esforço» tem uma carga muito mais intensa do que «com esforço».

 

Elsa -  E é exactamente por isso que esse morfema (isto é, o artigo indefinido) se emprega muitas vezes como uma espécie de superlativo. Ex: «Foi uma alegria quando viu os pais.» significa «Foi uma grande alegria».

É interessante lembrar que os clássicos e os puristas da língua gostavam pouco de empregar o artigo indefinido exactamente pela sua imprecisão o que não é de todo justificável.

O próprio Soeiro Pereira Gomes, um neo-realista, mas um clássico no estilo, tem esta frase:

«Depois de enganarem as bocas com naco de pão mais duro que a tarimba, meteram-se ao esteiro»

 

Teresa - Claro que ficaria muito mais expressivo: «com um naco de pão mais duro»

 

Então para terminarmos, tal como o fizemos na última sessão vamos ler um poema de Mendes de Carvalho cuja poesia quer a satírica, quer a lírica, tem uma super-abundância de artigos como recurso estilístico. È o deítico que enumera as várias situações ou estados de alma, intensificando os significados, pondo-os em realce.

Desta vez, trago um poema lírico de uma grande simplicidade, mas de profunda emoção, em que o artigo, quer o definido como o indefinido e a sua repetição são o principal recurso estilístico.

 

Sempre

 

A noite

o écran

um cigarro

um whisky

um cigarro

 

os teus olhos

o teu corpo

a tua voz

 

a tua pele

a seda a cor

a tua boca

a saliva o sabor

o teu mel

 

o encontro

o segredo

porta aberta

pra tudo

sem medo

a viagem

que fizemos

eu em ti

tu em mim

 

tatuagem

pra sempre

sem começo

nem fim.

 

 

O valor estilístico do artigo indefinido

 

 

Teresa - E hoje, Dra. Elsa, ainda vai falar do valor estilístico do artigo?

 

Elsa - Ainda vou falar do valor estilístico do artigo, mas do artigo indefinido.

Ora a capacidade estilística do artigo indefinido está exactamente na imprecisão que dá às representações.

«O José Casco voltou ainda com a mulher; depois, num domingo com a mulher e um compadre, - e era um coçar lento do queixo rapado, umas voltas desconfiadas  e da horta, umas demoras saídas sem torno da eira e da horta, umas demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquela manhã de Junho intoleravelmente  longa ao Fidalgo.

 

 

                                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos