Virgílio de Lemos

Para fazer um mar

Lisboa, Instituto Camões, 2001

(Prefácio de Luís Patraquim)

 

            Num tempo em que tanto se interroga sobre o valor da língua, num tempo em que as forças imperialistas e dominadoras subjugam os povos, tentando penetrar também através da imposição da sua língua no espaço de países de independências recentes e num tempo igualmente de questionação sobre o peso de uma língua oficial em confronto com as maternas na afirmação da nacionalidade, o primeiro poema do livro de Virgílio de Lemos, “Língua de corpo inteiro” é uma forma feliz de iniciar o livro, como ponto de partida e motivação para os outros poemas, ou melhor dito, ritual de iniciação para essa viagem do “homo viator”, que é o escritor, na grande aventura da escrita poética.

            “Rainha-mãe que desafia a morte e o silêncio

            mãe em mim, que interroga o silêncio e o tempo

            razão e instinto face à traição dos ventos,

            língua, mãe-imperial, por excelência, nobre  o rosto

            E o porte”.

            Assim se inicia o poema num louvor à língua materna, transfigurada em “rainha-mãe” ou “mãe imperial”, desafiando a morte, o silêncio, o tempo, a traição dos ventos, mas, sobretudo, recusando o medo e os sistemas, isto é, a ordem estabelecida, ou melhor, os poderes.

            É através da língua materna que o poeta interioriza a sua viagem, em busca do seu Absoluto, sublimando aquilo que lhe confere a identidade, de Homem entre dois mundos, de duas línguas (a portuguesa e a francesa) de duas civilizações (a ocidental e a oriental, a Europeia e a Africana). Recua “in illo tempore”, na visão da ilha mítica – Owamisi – ou no plano do real – Ibo, ao norte de Moçambique.

            (“a génese irrompe / como se o génio da memória e da paisagem / se beijassem na imediatez do que reclamo / e do oceano imprevisível, nascesses tu, ilha”).

            Retorno ao primordial, povos que se cruzaram desde a Etiópia ao Sudão, ao Novo Mundo e, no Extremo Oriente, entre conquistadores e escravos, para construírem o seu destino. Cosmogonia que se erotiza no encontro com o território amado, em desejos que se apoderam do corpo, “sol sobre o mar / cinzento azul. / Impulsos pulsões / que se perseguem / aves cavalos / d’água palmas / pulsar de barbatanas / no insondável / grito / cósmico / desmedido canto.

            Terra feita mulher, na descoberta do insondável, e “na sedução do seio / e da coxa, o sol / incha e a luz quebra / as sombras”.

            Viagem de ilha em ilha nesse corpo afro-índico e persa onde “ardem incensos. / Mahomet e Shiva / morrem de riso e barriga cheia pavores espantos e / amores”.

            E na adoração ao mar se cumpre o ritual da oração, “no erotismo mineral dos sais e das palavras”.

            Oceano Índico, onde se desvendam segredos e mitos, no reconhecimento das origens, “índico fogo e / vulva matricial / do eterno”. Mas igualmente espaço de conhecimento e de metamorfose no sentido da libertação do “eu” miscegenado. “vais deixando que tua branca / metafísica e sensual língua / de emoções / se liberte de tabus e teias.

            A poesia de Virgílio de Lemos cumpre-se entre a memória e a paixão, entre as raízes; (o berço africano, a bela ilha de Moçambique, avós indianos e as águas mornas do Índico) e a outra voz atlântica, metropolitana, cosmopolita, Paris e a sua cultura que se espelham nessa poesia intensa, de vibrantes imagens, por vezes, surrealizantes, outras concretistas, mas sempre de grande qualidade, fruto de uma cultura sólida e de um olhar atento entre dois mundos.

            A ilha, o mar, a viagem, entrecruzam-se com a sensualidade erótica. O desejo e sempre a mulher como receptáculo do amor e da memória ou como personificação da terra mater ou, melhor, da Mãe África.

                       

                        “Iremos os dois Lena

                        florir de flores

                        selvagens estas

                        campas

                        omanesas , chinesas, indoesas

                        afro-árabes, goesas

                        florir de beijos

                        a vertigem e

                        a memória”

                                   (in “Noites de Matemwe)

                                               p.37

 

                        “Na adoração ao mar

                        ilha volúpia e vento

                        monção de silêncio

                        corpo de viagem

                        utopia de saias e brisas

                        exílios e ópios

                        índico fogo e

                        vulva matricial

                        do eterno”

                                   (in “Oração ao Índico”)

                                               p. 40-41

 

            Virgílio de Lemos nasceu em 1929, na ilha do Ibo, no norte de Moçambique. Usou os heterónimos de Duarte Galvão, Bruno dos Reis e Lee Li Yang.

            Como Duarte Galvão colaborou na imprensa desafecta ao regime, nomeadamente na antologia da Casa dos Estudantes do Império.

            Em 1962 foi preso pela Pide e julgado pelo Tribunal Militar acusado de desrespeitar a bandeira portuguesa por ter escrito o verso “Kapulana verde e vermelha”. Em 1963, parte para Paris, onde passou a viver até hoje.

            Escreve para a “Présence Africaine” e para “Le Monde Diplomatique” e trabalha com Michel Leiris no Departamento da África Negra do Museu do Homem. Ingressa nos quadros da Radio France Internationale.

            Entre várias obras - contam-se as seguintes:

            Poemas do tempo Presente, Lourenço Marques, 1960

            Objet à Trouver, Paris, La Différence, 1988

            L’Obscene Pensée d’Alice, Paris, la Différence, 1989

            Negra Azul, Maputo, Instituto Camões, 1999

            Ilha de Moçambique, Maputo, 1999

            Eroticus Moçambicanus, Rio de Janeiro, 1999

            Lisboa, Oculto Amor, Coimbra, Minerva Editora, 2000

            Para fazer um mar, Lisboa, Instituto Camões, 2001

 

            Virgílio de Lemos, com toda a justiça deve ser considerado um poeta do espaço moçambicano ao lado de Craveirinha, de Noémia de Sousa, de Reinaldo Ferreira, seu inspirador, porque, onde quer que ele esteja, em Portugal, Paris ou em qualquer ponto de África o seu coração bate em uníssono com o povo moçambicano e com essa terra que foi seu berço e assim se exprime na sua poética.

 

                                                                                              Elsa Rodrigues dos Santos