2010-02-27
Critérios para a elaboração dum
VOcabulário atualizado para o novo AO
1. respeitar o texto do Acordo de 1990
Justifica-se este critério, visto
o Acordo de 1990 ter sido subscrito pelos países que o aprovaram, e qualquer alteração
que o contrarie exige, em princípio, novo acordo. Não se deve contrariar o
texto ou o espírito da prescrição estabelecida no AO. Todas as alterações
prejudicam a união na língua que se pretende com o novo AO. Assim, no português
europeu são inaceitáveis o “coerdeiro”, do VOLP brasileiro ou o “cor de rosa”
do VOLP da Editora, pois estão taxativamente co-herdeiro e cor-de-rosa
no texto do Acordo de 1990.
2. coerência no texto do acordo
A necessidade de respeitar o texto não
impede que se escolham soluções coerentes. É o caso, por exemplo, do vocábulo destróier, que desobedece à prescrição
de não se acentuar o ditongo “oi”
nas paroxítonas, mas obedece à regra de as acentuar quando terminam em “r”, regra que prevalece. Aceita-se,
porém, a incoerência gráfica resultante de se ter adotado o critério fonético (Egito, mas egípcio).
Deve-se preservar a tradição ortográfica
refletida nos formulários e vocabulários oficiais anteriores, quando das
omissões do texto do Acordo. Para o VOLP destinado ao português europeu, é
conveniente ter sempre presente a história das palavras e a etimologia para que
a língua se adapte a várias pronúncias.
No Vocabulário para o português europeu,
deve-se respeitar a índole da língua, não a adulterando com grupos de letras,
acentos ou arranjos sintáticos completamente estranhos à raiz do nosso idioma.
É o caso dos “st” e “sc” iniciais, subserviência atual ao inglês; notando-se:
que do inglês já estão estabilizadas na língua estoque, estêncil, estandardizar; que os brasileiros têm estresse, estique, estafe, etc.; que o
st inicial latino sempre se converteu em “es” (ex.: stadiu- > estádio) e
que “sc” inicial foi banido da língua em 1931 (ex.: scientia > ciência).
Neste aspeto de respeitar a história das
palavras, por muita vontade que se tenha de inovar, deve-se continuar a
distinguir (do sentido positivo das palavras) os referentes: “sentido
figurado”, “aderência de sentidos”, ou a “unidade semântica particular”, nas
ligações com hífen dos compostos (ex.: tirados do texto do AO, respetivamente: água-de-colónia [não é uma água, e é o
hífen que permite a minúscula no topónimo], tio-avô (não só tio nem só avô), mais-que-perfeito [uma designação que invoca, no conjunto, um
referente antigo]).
Atender à tradição evita que surja
uma oposição generalizada da parte das pessoas extremosas com a língua, evita
um desencontro entre gerações e, sobretudo, a revolta de comunidades numerosas,
que insistam em escrever na norma ortográfica substituída.
Um dos objetivos do acordo de 1990 foi
simplificar a língua. Assim, também nos termos agora escolhidos para o VOLP
destinado ao português europeu se deverá optar pela simplicidade, quanto
possível. No entanto, simplificar só pelo desejo de mudar, sem que haja uma
vantagem óbvia, ou que até traga prejuízo para a comunicação, é condenável.
Deve-se simplificar só o que for indispensável e necessário.
Nada impede, porém, que se
apresentem sugestões no VOLP para o português europeu, aproveitando o ensejo de
o novo AO permitir duplas grafias.
Por exemplo, poderia sugerir‑se
que nos compostos do texto do AO tipo azul-escuro
(subs.-adjec.) no sentido positivo, se aceitassem de futuro as grafias sem
hífen: “azul escuro”.
Outro exemplo: foi vantajosa a
eliminação do acento nas terminações verbais ‑eem, e em pera, pero, polo; mas prejudicial para a comunicação a supressão do acento na
flexão pára do verbo parar, porque
pode facilmente coexistir com a preposição “para” num discurso e fazer confusão
(ex.: “ele para, para deixar passar”). Se existem as opções pôr e por, -ámos e ‑amos, pelo mesmo motivo e forma e fôrma sem
justificação aparente, não se vê que não possam existir as opções pára e para.
Notar que o Acordo de 1990 já tem
mais de 20 anos e, entretanto, a linguística não estacionou.
De qualquer forma, as sugestões
alternativas devem aparecer sempre como variantes não preferenciais, em relação
àquilo que está taxativamente estabelecido no texto do novo AO.
5. Unidade
Portugal esteve
parado na atualização oficial do seu vocabulário desde 1970 (salvo a ação
meritória de alguns lexicógrafos (de que destacamos, por exemplo, José Pedro
Machado no «Grande Dicionário da Língua Portuguesa», projeto da
Tendo sido o
primeiro (e em linhas gerais respeitando todos estes pontos acima indicados), o
VOLP brasileiro deve ser sempre considerado nas variantes recomendadas para o
português europeu (exemplos do VOLP brasileiro: hifens, toalete e as
palavras acima indicadas: estresse,
estique, estafe, voltando a sublinhar que já temos estoque, estêncil, estandardizar); mas sermos intransigentes nas
nossas variantes próprias (exemplo: abrupto,
co-herdeiro, húmido, etc.). Este critério de respeito pelo VOLP brasileiro
destina-se a evitar duplas grafias desnecessárias e se conseguir a máxima
unidade na língua, objetivo fundamental do Acordo de 1990.
NOTA FINAL
Este texto foi integralmente
escrito no Acordo de 1990. Tem 885 palavras. Excluindo os exemplos do novo AO, tiveram
de ser alteradas só onze (e uma está repetida).
2010-02-21
D’ Silvas Filho