Consultório linguístico

Pelo Dr. José Neves Henriques

 

Mealheiro

 

            Assim, por exemplo, nesta época de míseros ordenados (para alguns), lembrei-me do termo mealheiro.

            Um mealheiro é uma caixinha onde se vai guardando (amealhando) o dinheirito que fica das economias. Lá se vai pondo um bocadito hoje e outro amanhã, «às migalhitas». E por ser assim, às migalhitas, o povo relacionou a palavra com migalha e não com amealhar, menos conhecida, e transformou-a em migalheiro, que anda por aí na boca da nossa gente.

 

Porque e por que

 

            Segundo a ortografia portuguesa (e não brasileira), escreve-se porque nas frases interrogativas, directas ou indirectas, como «Porque disseste isso?». «Diz-me porque fizeste isso?». A razão é esta: porque é um advérbio interrogativo. Se é um advérbio, é uma só palavra. Escreve-se por que em frases como as seguintes: Por que razão (motivo, causa, método, pretexto, etc.) fizeste isto? Neste caso, por é uma preposição; que é determinante relativo equivalente a qual: «Diz-me por qual motivo fizeste isso».

 

Reviravolta

 

            Pode-se dizer «volte face» em vez de «volta-face»?

            Tanto volte face como volta-face são adaptações escusadas do francês volte-face, que nós dizemos, conforme os casos, e, por vezes, mais expressivamente: meia-volta, reviravolta – repare-se na expressividade desta; mudança total, mudança brusca e total de opinião, de maneira de agir, de política, etc.; retractação – e não retratação, como lemos por aí. Retractação não tem nada que ver com retrato nem com retratar, mas com retracto e retractar, dar o dito por não dito. Sim… não tem nada que ver, e não: não tem nada a ver, à francesa, como ouvimos na rádio e TV.

            No inglês também se diz volte-face; foi buscá-lo ao francês. E o francês foi buscá-lo ao italiano volta faccia, em que volta é o imperativo de voltare, voltar.

            Como vemos, a nossa língua é suficientemente rica e expressiva para não precisar de ir ao francês, como fizeram os ingleses. Quem assim procede empobrece-a, porque deixa de se empregar o que é muito nosso para se empregar o que é dos outros.

            Para terminar: a nossa língua tem volta-cara, acto de voltar o rosto, que nalguns casos, pode também substituir o francês volte-face.

 

Informar

 

            Tanto está certo dizer-se informar que como informar de que. Depende dos casos. Quando vem expressa a entidade a quem se informa, diz-se informar de que: «Informaram o João de que virias amanhã». Quando não vem expressa, diz-se informar que: «Informaram que virias amanhã».

            Esta sintaxe é extensiva a outros verbos que significam «falar» e não só como avisar, prevenir, impedir, etc.

            São, pois, «abortos» sintácticos as frases começadas por «Fulano disse de que, avisou de que, preveniu de que», etc.

 

Qual é o feminino de terceiro-oficial?

 

            É terceira-oficiala, como ensina o «Índice das Profissões no Masculino e Feminino» do Instituto de Emprego e Formação Profissionais. Assim, nas designações masculinas de oficial de armas, oficial de convés, etc., menciona o seguinte feminino: oficiala de armas, oficiala de convés, etc.

            O feminino de oficial é oficiala apenas no sentido de «mulher que trabalha num ofício», diz o «Vocabulário da Língua Portuguesa» de Rebelo Gonçalves.

 

Forum

 

            Qual o plural de forum?

            Forum, foro, é um substantivo latino do género neutro. Por isso, o plural termina em –a: fora, os foros.

            É claro que de modo nenhum está dentro da índole da língua portuguesa dizer os fora, plural de forum.

            O melhor que podemos fazer é aportuguesar, escrevendo assim: o fórum, os fóruns, uma vez que não há somente o Fórum Picoas.

            Do mesmo modo procedemos com os latinismos álbum, álbuns; memorândum (já aportuguesado em memorando), memorânduns; referêndum (já aportuguesado em referendo), referênduns.

            Com o latim forum não o podemos aportuguesar em foro, porque este já existe, e com outros significados.

 

Dispêndio e Despender

 

            Diz-se dispêndio, consumo, gasto, despesa, mas despender, fazer dispêndio ou despesa de, gastar.

            Isto causa estranheza a muitas pessoas, e com razão. A explicação é fácil: dispêndio vem directamente do latim dispendiu-, por via culta; despender vem do latim dispendere, mas por via popular; por isso, deu-se a transformação de dis em dês. A vogal i assimilou-se à vogal nasal en.

 

Estória

 

            Qual o étimo e significado da palavra «estória»?

            O étimo da palavra estória é o latim historia, e este do grego historía, história, narrativa histórica ou fabulosa.

            Estória era a grafia que se usava no português medieval. É o mesmo que história. Temos aqui, por exemplo, um passo de Fernão Lopes, em que se lê o seguinte no início do prólogo da «Crónica de D. João I»:

            «Grande licença deu a afeiçom a muitos que teveram cárrego d’ordenar estórias, mormente os senhores em cuja mercee e terra viviam (…)»

            Há poucos anos, começou-se a fazer distinção entre estória (conto, narração de coisas e acontecimentos fictícios, como sejam as histórias para crianças) e história (narração de factos sociais, políticos, económicos, militares, etc., relativos a um ou mais países).

            Esta distinção começou no Brasil e está-se espalhando entre nós. Tal distinção deve-se, julgamos, a influência do inglês, que usa story (sem h) no sentido de conto, novela, narrativa, etc., e history (com h) no sentido que demos atrás para história, que é o mesmo de estória em Fernão Lopes e outros escritores medievais.

            O Brasil copiou da língua inglesa, e nós copiámos do Brasil. E para quê? Nunca a palavra história deixou de ter significado bem preciso, quer se tratasse de conto ou da verdadeira história. O contexto determina com facilidade o sentido da palavra. Note-se, até, que fazemos distinção entre história e histórias. No plural são os contos, novelas, que estão fora do espírito científico, como sejam as «Histórias Para os Meus Filhos», «Histórias para crianças», etc.

            É como, por exemplo, saia (verbo) e saia (peça de vestuário). O contexto determina o sentido:

                        Saia daqui para fora!

                        A Maria comprou uma saia.

 

 Consultoria ou Consultadoria

 

            Ambas as palavras estão bem formadas: a primeira de consultor + ia; a segunda, de consultador + ia. Damos a preferência à primeira. Para se compreender esta preferência, vejamos outras palavras formadas de maneira semelhante:

 

            Fiadoria – de fiador + ia, encargo de fiador.

            Curadoria – de curador + ia, cargo ou funções de curador, isto é, administrador de bens por encargo judicial.

            Contadoria – de contador + ia, repartição onde se verificam, recebem e pagam as contas.

            Recebedoria – de recebedor + ia, repartição do recebedor; cargo de recebedor.

            Ferradoria – de ferrador + ia, oficina de ferrador.

            Procuradoria – de procurador + ia, ofício ou cargo de procurador; repartição onde o procurador dá expediente aos assuntos a seu cargo.

            Pagadoria – de pagador + ia, lugar ou repartição onde se fazem os pagamentos.

            Vemos que na significação destas palavras está subjacente a pessoa a quem procuramos para determinado serviço. Eis por que preferimos consultoria (e não consultadoria) em que está subjacente a pessoa que procuramos.

 

Diz-se estada ou estadia?

 

            Diz-se dum modo e doutro, mas há diferença entre os dois vocábulos.

            Estada é o acto de estar; é a demora ou detença num lugar. Ex.: «A estada de Fulano entre nós foi muito agradável».

            Também significa o lugar que alguém ocupa para dormir, onde tem a cama: «a estada do preso na cadeia».

            Estadia é, propriamente, a demora que um navio fretado é obrigado a ter no porto de descarga, sem que para isso tenha de receber aumento de frete.

            No entanto, há quem use estadia com sentido de estada. Domingos Monteiro, por exemplo, escreveu assim em Prisão, cap. III:

            «A estadia do Pé-de-Vento, ali, marcaria uma época (…)».

            No português vulgar, está-se fazendo distinção entre estada (tempo um tanto breve) e estadia (tempo um tanto longo).

 

Diz-se computadorizar ou computorizar?

 

            De computador faz-se computadorizar (com o sufixo izar). Com não há computor, não é bem formado o vocábulo computorizar. Há quem use este verbo certamente por influência do inglês computerize.

 

Diz-se status quo ou statu quo?

 

            Diz-se statu quo, expressão latina no caso oblativo do singular. É abreviação da expressão seguinte: statu quo ante bellum, no estado em que (as coisas se encontravam) antes da guerra.

            Usa-se principalmente em diplomacia (arte de conduzir as relações oficiais entre as nações), e também na fala corrente, para significar o estado de coisas que se mantêm sem mudança no momento de que se está tratando.

            Statu quo significa, portanto, estado de imobilidade de estagnação. É o contrário do progresso.

 

Diz-se acoplar ou acopular ?

 

            Diz-se acoplar, porque a palavra veio do francês accoupler (juntar, reunir duas coisas), conforme o Dic. Etim. Do Dr. José Pedro Machado, e este de coupler (atrelar), do latim copulare (unir).

            Se a palavra tivesse sido formada em português,  poder-se-ia dizer acopular, de a + copular (juntar).

            Da família de acoplar, temos acoplamento, do francês accouplement (junta, parelha, união).

            É natural que já seja tarde para pôr em circulação acopular e acopulamento.

 

Junta da Freguesia ou Junta de Freguesia

 

            Conforme. Se se tratar de uma junta duma freguesia indeterminada, será melhor dizermos junta de freguesia.

            Equivale a junta de uma freguesia qualquer, indefinida. Exs.:

            Fui a uma junta de freguesia informar-me do assunto.

            Diz-se, porém, junta da freguesia, com o artigo definido (a, em da), quando se trata de uma junta bem definida.

            Exemplos:

           

Junta da Freguesia da Lapa.

            O novo presidente da Junta da Freguesia é Fulano.

            Vai à Junta da Freguesia buscar o tal documento.

           

            Em todos estes casos, trata-se de juntas bem determinadas para os interlocutores.

            Sendo assim, não nos parecem bem aquelas tabuletas que lemos a assinalar determinada junta, como por exemplo:

           

            Junta de Freguesia de Carnide.

 

            A palavra «freguesia» refere-se a uma freguesia bem conhecida das pessoas do sítio e, portanto, bem determinada.

            Será preferível, em casos deste tipo, dizer Junta da Freguesia de Carnide.

           

            Vejamos, agora, no plural.

            Diremos:

            Algumas juntas de freguesia não funcionam bem.

 

            São apenas algumas juntas. Não se define quais são. Por isso, o substantivo freguesia não leva o artigo definido a a defini-la.

 

            No entanto, diremos:

            As juntas das freguesias têm obrigação de atender todas as pessoas.

 

            As juntas estão bem determinadas: são todas. Só não se determina o nome e o número preciso, mas isso é outra coisa. Portanto, das freguesias, com artigo definido as (em das), salvo melhor opinião.

 

Experiência e Experimentação

           

            São palavras de sentido algo diferente mas não raro se empregam no mesmo caso.

            Experimentação é o acto ou o efeito de experimentar; é também o emprego sistemático da experiência.

            Experiência é o processo de pesquisar a verdade, procurando a produção do facto, para o poder observar.

            Como sabemos, na linguagem coloquial, fora, portanto, da linguagem científica, experiência quer dizer conhecimento obtido pela prática.

            No Brasil usa-se experimento, do latim experimentu-, para a experiência de carácter científico. Com esta palavra, cessa a confusão entre experiência e experimentação.